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Design vaginal

A cirurgia íntima está na moda. Na moda mesmo: são milhões de mulheres diminuindo ou aumentando os grandes lábios todo ano e dando um …

A cirurgia íntima está na moda. Na moda mesmo: são milhões de mulheres diminuindo ou aumentando os grandes lábios todo ano e dando um retoque aqui e acolá. Nunca a palavra acolá foi usada com mais propriedade, me parece. Bom, ninguém sabe o que é uma vagina normal, dada a variedade assombrosa de cores e formatos, mas já existe gente como o ginecologista Paulo Guimarães, que é “expert em design vaginal”. Caraca, imagina o cartão do sujeito. Certamente ele não fica embaraçado como eu quando tenho de dizer que sou escritor.

A modelo gaúcha Andressa Ulrach disse que a vagina não é bonita, que pode ser melhorada. Sério? Me parece uma típica afirmativa feminina. Isso mesmo, as mulheres não entendem pô nenhuma de vagina, fora lésbicas, claro. Tinham era de perguntar pra elas e pra nós, homens. A mim nunca perguntaram nada. Andressa, me liga.

A única coisa errada com a vagina é a palavra vagina, na minha opinião. Não soa bem. Seu ar científico é brochante. Pior mesmo só vulva. Parece qualquer coisa que vive nas profundezas do oceano, tem olhos nas costas e ventosas. Depois vêm todos os demais apelidos. Todos grosseiros. Por quê? Por que não uma palavra, ao menos uma, bonita e delicada, mas que ainda assim insinuasse o prazer e a sacanagem? Os espanhóis, ao chamá-la de concha, foram mais felizes. Ando atrás dessa palavra. Acho que vou ter que inventá-la.

Penso que apenas o fato de nós, homens, reagirmos à vagina como é público e notório, às vezes reagirmos apenas a seu nome ou apelidos ou à sua lembrança, deveria tranquilizar a Andresa e demais senhoras e senhoritas. Acho que quem acertou nesse assunto foi a psicóloga Rachel Moreno, que disse que andam atrás de um modelo imaginário do órgão de menininha, o formato “sou virgem”. Confesso que essa ideia me dá um nervoso.

Querem um conselho, moças? Deem mais e parem de pensar em besteira.

Henry e June

Sim, estou lendo o livro da Anaïs Nin. É dureza. Anaïs tem o que ela mesma chama de “vício de embelezar”. Exemplo? Chama esperma de “sangue branco”. Bom, se isso é belo, minha vó foi campeã na cata de coquinho na ladeira. Sem falar que chamar esperma de sangue branco é um pouco pior que chamar seis de meia dúzia. É, como diria Quevedo, chamar barbeiro de tosquiador de bochechas e estilista de barbas. Convenhamos, tem gente que confunde literatura com frescura. Chega de fricotes, pessoal, vamos falar sério.

Mas o estilo “poético” de Anaïs não é o pior, mesmo quando leva a frases ilegíveis, coisa que acontece mais do que devia. O pior, pra mim, é que Anaïs mascara os atos com palavras bonitinhas, deforma os motivos e as emoções pra sair melhor na foto e, pior, não parece se dar conta da própria vaidade e nem suspeita da autoilusão em que está mergulhada a maior parte da sua vida, ou acaba acreditando nas mentiras e meias-verdades que inventa às vezes por prazer, não por necessidade. A moça estava louquinha pra dar, mas chama isso de conhecer profundamente o seu “âmago”. Enquanto conhecia seu âmago na cama com Miller, Anaïs não largou o marido, o banqueiro Hugh Guiler, a quem desprezava apesar de viver afirmando o contrário, jurando afeto e tudo o mais.  Pensou em divórcio? Nunquinha, meu nego. Não pra valer. Pago um cafezinho a quem adivinhar por quê.

Mas, é claro, ela tem momentos de lucidez e sinceridade. Agora, pra se ter uma noção precisa do que houve entre Henry Miller, June, Anaïs e Hugh Guiler, é preciso ler a biografia de Miller escrita por Robert Ferguson. Não sei se a L&PM tem uma edição nova. A edição que eu tenho é de 1991. Mas vale a pena procurar.

Miller com medo da guerra

“Amo a vida acima da verdade, acima da honra, acima dos amigos, do país, de Deus ou de qualquer coisa. Quero me manter vivo até que tenha tido o bastante. Quero morrer por vontade própria, pacificamente satisfeito, na cama se possível, e durante o sono.”

Autor

Ernani Ssó

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