Três adolescentes, numa cidadezinha do oeste paranaense, picharam a entrada de uma igreja: “Deus é gay”, “Fuck the religions” e “Pequenas Igrejas, Grandes Negócios”. Presos, alegaram dois motivos: umas biritas a mais e a chatice da vida. Se você se lembra da própria adolescência, sente a veracidade dessa confissão. Eu, pelo menos, me lembro de noites tenebrosas, em que me sentia um enterrado vivo e, pra combater isso, aprontava coisas absurdas. Mas que ninguém insista: não direi uma palavra.
Segundo Jorge Amado, Deus é gordo. Ele não dá detalhes, mas a gente fica com a impressão de que é um gordo bonachão, amante da boa mesa, da bebida e do riso. Pra completar, de longas sestas na rede. Deve viver de rendas ou ser sustentado pela patroa. Acho que com esse Deus baiano haveria menos impotentes e mais mulheres fogosas. Claro, é só um palpite. Meu ramo não é a teologia.
Se Deus é gay, nunca saiu do armário. Esclareço que, quando penso em Deus, penso no personagem do Velho Testamento, aquele patriarca esquecido e furibundo, uma espécie de Júpiter meio gagá. Uma coisa é certa: o Deus do Velho Testamento, como a maioria absoluta dos homens, tem medo de mulher. Elas são lindas, são incontroláveis, conhecem todos os nossos segredos e têm uma língua afiada. Pra completar, viram a cabeça de todos, ou até umas das outras. Melhor deixar as mulheres acorrentadas num porão escuro, a pão e água, mais umas porradas de vez em quando. É ou não é? Há na Bíblia uma numerosa corja de santos e profetas difamando as mulheres. Quando por acaso se elogia uma, podem crer, trata-se de uma idealização impossível, como aquelas mulheres que defecam pérolas no filme do Fellini, lembram?
O “fuck the religions” é só um desabafo. Se os garotos estavam achando a vida chata, eles vão ver só depois do julgamento, quando na certa vão ter de cumprir várias horas de serviços comunitários. Ainda vão ter de ouvir a gozação de muitos carolas. A sorte deles é que a Inquisição fechou suas filiais. Embora muitos inquisidores andem soltos por aí, na calada da noite.
Agora, cá pra nós, “Pequenas Igrejas, Grandes Negócios” é um achado. Se os garotos não copiaram, têm algum futuro. Talvez na Academia Brasileira de Letras. Fizeram uma frase, afinal, coisa que muitos acadêmicos não.
Não sei por que, ou sei muito bem, lembrei de uma cena de um romance do Raymond Chandler. Mas lembrei de modo vago. Não sei nem onde procurar pra citar literalmente. Suspeito que em A dama do lago. Enfim, alguém diz que o que diferencia o crime dos negócios é que você precisa de investimento nos negócios. Então Philip Marlowe responde que grandes crimes necessitam de grandes investimentos.
Sei, os católicos acham que sua fé é mais limpa que o lençol aquele da propaganda de sabão em pó. Tudo bem, a fé de milhares e milhares de católicos deve ser de um branco radiante. Mas tem um detalhe: vários católicos que conheço separam, de modo higiênico e muito prático para a consciência, entre sua fé e a Igreja como instituição, representada pelos padres e demais homens de saia, excetuando os escoceses. Porque a história da instituição é um deus-nos-acuda: um rosário de crimes que vai do roubo ao assassinato e da gula ao abuso sexual. Não há pecado por mais escabroso que seja que não tenha sido cometido por vários papas.
Já me aconselharam a não me meter em discussões religiosas. Ninguém ouve nada, só fala. Mas não estou entrando em discussão nenhuma, me parece. Estou aqui apenas matutando sobre alguns fatos. Por mais crente que uma pessoa seja, acho difícil que seja capaz de negar que a Inquisição queimava gente inocente e às vezes apenas pra se apossar de seus bens. Como também não pode negar a pedofilia de tantos religiosos nem que o Vaticano fez de tudo pra esconder isso. Como não pode negar ainda que o catolicismo prega as virtudes da pobreza e é uma das multinacionais mais ricas e mais corruptas.
Enfim, eu não tenho nada contra a fé de ninguém. Só acho, como repito sempre, que ninguém devia lucrar com a fé. Amém.
Deu no jornal
“Ser gay é ilegal em 78 países e passível de pena de morte em 5.” Como se vê, é preciso ser muito macho pra ser gay.

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