Falam o diabo dele, mas não dá pra negar: escreve bem pra chuchu e tem coragem. Temperando isso, autoironia – uma autoironia seca, como deve ser. Certo, o Diogo faz gênero, mas quem não faz?
Esses dias, na tevê, ele disse que um lugar-comum que passa por verdade é que no Brasil rico não vai pra cadeia. Pobre é preso, fica três anos e está na rua de novo. Moral da história: no Brasil, ninguém vai pra cadeia.
Não, não. Como dizia meu avô, até aí meus bois não puxam. Há milhares de pobres presos, há mais de dez anos, aguardando a acusação formal. Às vezes porque furtaram um pé de couve na feira. É simples: esses presos não têm um bom advogado, ou mesmo mediano, ou mesmo ruim. Eles se perderam na burocracia da Justiça. O Dantas e o Maluf, por exemplo, com acusações formais bem específicas, estão na rua. Mais: um carinha no Supremo foi chamado no meio da noite, num feriado, pra assinar a papelada.
Exagero meu? Sim, um pouco. Mas um exagero bem menor do que o do Diogo. Um dos problemas mais sérios do humor é este: como não perder a piada sem perder a realidade. Apenas uma coisa me preocupa nessa história: o Diogo sabe direitinho tudo isso que eu acabei de dizer.
A loja da esquina
Quando me sobra um tempinho, passo pelo canal TCM, canal 91 da Net. Se dou sorte, topo com velhos filmes, como A loja da esquina, de 1940, escrito por Samson Raphaelson e dirigido por Ernest Lubitsch. As estrelas? James Stuart e Margaret Sullavan. Não fiquei surpreso, mas é preciso notar que fazia horas que não via uma comédia-romântica realmente engraçada, mais comédia que romântica, ou com um romantismo que jamais é baboso. Agora, uma coisa talvez tenha me surpreendido: o exato equilíbrio do humor – mesmo sofisticado e inteligente pode ser compreendido até por admiradores do Jim Carrey. Daí fiquei pensando: O que explica a decadência de hoje em dia? O que explica essa enxurrada de grosseria e retardo mental que começa no roteiro e vai até as caretas do ator? Faltam roteiristas como Raphaelson e diretores como Lubitsch, ou os produtores apostam mais nos outros? Imagino que nos velhos tempos também havia pilhas de besteirol que simplesmente não chegaram até nós.
Os dois Simenon
Simplificando, há dois Simenon: o autor das novelas do comissário Maigret e o autor das novelas duras, como ele mesmo chamava. Algumas do Maigret são excelentes, como Cecília morreu” (publicada por aqui com o título idiota de Crime na polícia), As testemunhas rebeldes, A sombra na janela, Maigret e o professor. O que há de comum nesses livros é todo um ambiente, uma atmosfera, personagens realmente vivos, psicologia certeira – e uma história negra, beirando à tragédia grega.
Mas há dezenas de novelas do Maigret que o Simenon despachou de olho na conta bancária ou por hábito. Leio tudo porque sempre há um personagem, ou um capítulo, ou pelo menos uma cena, com o poder de driblar a lei da gravidade ou, como se diz popularmente, sair do chão.
O problema das Maigret, identificado pelo próprio Simenon, é que o personagem principal é o comissário e o drama é dos investigados. Quer dizer, o comissário é apenas um espectador, jamais é levado ao seu limite. O máximo de problema que eu vi ele enfrentar em dezenas de histórias foi um resfriado. Mesmo ele se identificando com as pessoas que interroga para assim as compreender, temos tudo de segunda mão.
Nas novelas duras, não há intermediários. Os personagens falam direto com a gente e vão até os quintos dos infernos. Infelizmente, o Simenon dessas novelas é o menos lido. Infelizmente, porque esse Simenon é grande: consegue ser simples, profundo e divertido. Um ficcionista muitas vezes acima de outros muito badalados como Camus, Sartre e Simone de Beauvoir, digamos, pra não sair das margens do Sena. Duvidam? Leiam O gato, Sangue na neve, Os fantasmas do chapeleiro, Em caso de desgraça.

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