O domingo em Porto Alegre amanheceu esplendoroso (tá, já sei, que terminho bem antigo, esplendoroso). Ensolarado, temperatura agradável, ideal para um passeio. Pois lá fomos para a Fundação Iberê Camargo, ver a exposição sobre arte abstrata.
Resolvemos então deixar o carro próximo e ir caminhando. Quase impossível. Andando pela calçada interna da curva do Estaleiro Só, vendo os carros na contramão e passando por um lodo. Nenhuma preocupação com o pedestre. Fiquei pensando como alguém que não tenha carro pode ir a pé até a Fundação. Não sei. Ou melhor, não vai.
Mas as adversidades pararam por aí. Solicitamos um mediador para nos guiar e enriquecer a exposição. O Victor foi nosso guia, enchendo de conteúdo e inteligência nossa visita. Ficamos, além de muito mais informados, encantados com a abordagem oferecida. Dias antes, a Fran já tinha sido também positivamente surpreendida pela mediadora Juliana, da mesma Fundação. (Batam palmas para a Fundação e para esta gurizada cheia de energia, inteligência, criatividade e educação). Abaixo, está uma das obras que encontra-se em exposição.

Na mostra, estão reunidas 88 obras dos venezuelanos Gego, Alejandro Otero, Jesus Soto, Carlos Cruz-Diez e Hércules Barsotti e dos brasileiros Willys de Castro, Lygia Clark, Mira Schendel, Hélio Oiticica e Judith Lauand.
www.iberecamargo.org.br
Basicamente, os artistas realizaram, em diferentes partes do mundo, uma tentativa de fazer com que a arte deixasse de ser restrita aos museus, levando-a às ruas, ao alcance da sociedade comum(tarefa que os nossos museus e espaços culturais devem intensificar). Também tencionaram fazer com que os quadros não mais contivessem as pinturas, transcendendo seus próprios limites. Se observarmos a obra acima, veremos que a moldura faz parte da própria obra. Quiseram sair do quadrado.
Visitar uma exposição quando se tem ou se recebe informações históricas relevantes do momento, faz com que nossa compreensão, visão e neurônios remexam-se em seus lugares e estabeleçam novas conexões (que os médicos adoram mencionar, como sinônimo de saúde). A sensação que tive foi de que, através do teto e das paredes da Fundação Iberê Camargo estavam entrando raios de sol por furos imaginários, atingindo em cheio minha mente, meus neurônios. Isto dito, a gente enxerga o mundo com outros olhos. As perspectivas mudam, ampliando o horizonte e as possibilidades. A história da humanidade vai aos poucos se conectando. Vou tentar exemplificar.
Meu pai dizia que a vida, as pessoas e a moda, por exemplo, se comportava de forma pendular. Ia de um extremo ao outro, até acomodar-se lá pelas tantas no meio. Eu recordei hoje, na visita, que na minha infância a moda era calças boca de sino. Quanto mais largas, melhor. E então passou esta fase, e veio a das calças com bocas tão justas que chegavam a ser incômodas. Extrapolando este raciocínio (e fazendo tudo isto sem beber nada, acreditem), podemos pensar que a humanidade esteve por muitos séculos tolhida de liberdade. Os papéis, os limites, tudo muito estabelecido e rígido. Aí, veio a liberdade, a libertação. Muito boa, pois nos criou um universo de possibilidades nunca antes imaginado. Entretanto, as pessoas ficaram tão livres, mas tão livres, que perderam totalmente os referenciais. Acham que tudo, mas tudo mesmo é relativo. Não é assim. Acho que fomos de um extremo a outro, na história da humanidade. Está na hora de chegarmos a um equilíbrio. Porque há referenciais que são fundamentais. Na educação dos filhos, por exemplo. Os pais têm que assumir seu papel. O filho deve ser orientado e, se for o caso, ouvir a palavra não.
E há coisas que são mesmo para um homem fazer. Outras, só de mulher. Outras tantas, pertencem a ambos. Relativizar não é indefinir. A idéia é fazer pensar. Porque se não for para pensarmos sobre para onde estamos indo, afinal, melhor que venhamos como macacos nas próximas vidas.

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