Colunas

E se pegar?

A tônica das músicas populares brasileiras atualmente é de uma promessa: se a pessoa “pegar” a outra, vai tocar o terror. Há uma das …

A tônica das músicas populares brasileiras atualmente é de uma promessa: se a pessoa “pegar” a outra, vai tocar o terror. Há uma das mais famosas, que é “Ai se eu te pego”, mas há incontáveis com a mesma abordagem. Se a pessoa ouvinte for pega, o cantor/cantora vai fazer horrores, vai lhe dar prazer em último grau, como jamais viu. Além de faltar criatividade para quem está escrevendo estas músicas, há um outro fator que quero abordar: o narcisismo.

É extremamente narcisista o (a) cantor (a) dizer que se pegar o (a) ouvinte, este alcançará prazeres e sensações jamais sentidas. Por que narcísico? Porque o cantor atribui a si mesmo um poder incalculável. Totalmente fora da realidade, mesmo da realidade musical e “poética” (chega a me doer usar esta expressão para estas músicas, mas é para a clareza do que estou afirmando).  Somente alguém que está totalmente egocentrado pode entender que é a maior fonte de prazer que a outra pessoa pode encontrar. É narcísico e, portanto, extremamente infantil.

O que não chega a ser uma surpresa. A sociedade está muito infantilizada. Quase retardada. Os pais não sabem mais dizer não a seus filhos e os tratam como pequenos exemplares de príncipes e princesas, a quem a vida (ou qualquer ser humano habitante da Terra que ouse fazê-lo) jamais pode dizer não. A frustração é tratada como uma derrota, não como uma situação indispensável para a construção de um caráter. E por aí vão os “príncipes” e as “princesas”. Eles entendem que se não podem ser frustrados, suas vontades preponderam sobre as vontades e direitos dos demais. Seguidamente me deparo com manifestações neste sentido: motoristas que simplesmente param em qualquer lugar para que um “príncipe” suba ou desça do carro, bem como ele mesmo (motorista) também para em qualquer lugar para fazer uma rápida compra ou entrega. É fantástico. Educação em supermercados então, já era. Pessoas furando filas, desrespeito com idosos, a lista é tão grande que seria necessária uma coluna inteira para citar um dia de desrespeito.

O que os gênios não percebem é que está tudo interligado: se dou o recado ao meu filho de que ele não pode ser frustrado, ele (apesar de errônea, logicamente) colocará seus desejos e demandas em primeiríssimo lugar, passando por cima do que for necessário para atingir a satisfação de sua vontade. Afinal, não foi isto o que seus pais lhe ensinaram? Porém, como vivemos numa sociedade, o que acontecerá (e o pior, já está acontecendo) se todos passarem a agir assim? Teremos uma sociedade voltando a ser primitiva. Retrocedendo. Os direitos das pessoas estarão sempre em segundo plano. Levamos milhares de anos para evoluir e aprender que para o convívio em sociedade, precisamos abrir mão de algumas de nossas vontades em detrimento de um convívio civilizado. A mensagem que pais enviam é no sentido contrário.

Sem frustração de suas vontades, estes indivíduos não evoluem. Não saem da fase de egocentrismo. E assim sendo, tal como Sigmund Freud nos apresentou, se entendem como o centro do universo, tal qual bebês. Um bebê e uma criança (até certa idade) se acha o centro do mundo e portanto do prazer de seus pais. Só ela pode lhes emprestar prazer. Depois, vai se deparando com as frustrações e entendendo, por exemplo, que seus pais têm vida própria, outros interesses e prazeres. E isto lhes frustra, é claro. Mas é absolutamente pedagógico e indispensável. É exatamente a partir das frustrações que a criança vai entendendo não ser o centro do mundo.

Porém, se são poupadas destas frustrações, a batida segue a mesma. O indivíduo se entende centro do universo e principal fonte de prazer. Melhor: única fonte de prazer. E aí, faz promessas e se atribui um poder digno dos deuses. Ai, se eu te pego. Farei tcherê tcherê. Se fores na minha casa, vais ver. E por aí vai.

Tenho duas perguntas, para finalizar a coluna: e se o cantor pegar? O que realmente vai acontecer? Não precisa ser nenhum gênio para saber que muito pouco. A outra pergunta é: onde estarão tantos castelos, para tantos príncipes e princesas? Serão todos os demais plebeus, portanto? Pensemos, enquanto seguem as promessas de que se pegarem…

Autor

Flavio Paiva

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.