Escrevo enquanto Occhi, o vira-latas aqui de casa, olha a paisagem da janela do escritório (paisagem? um pé de hibisco-chorão vermelho, uma figueira cheia de sabiás e, claro, o edifício que bloqueia boa parte do céu) encarapitado no meu ombro. Enquanto escrevo, ouço as risadas de Isabela, a filha do zelador, andando de motoca pelo pátio e respondendo, com voz trocada, “que tu qué, mãe?” ao ser chamada. Enquanto escrevo, a televisão despeja um turbilhão de informações, boa parte delas sobre o que minha mãe, dona Luci, classifica de “desgraceira”. Alguém vai dizer, com certeza: troca de canal, desliga o aparelho. E com isso, troco de realidade? Desligo o ruim da vida?
Faz pouco, repetiram, pela enésima vez, a imagem do goleiro Bruno rindo com escárnio à saída de mais uma sessão-silêncio devidamente instruída por aquele seu advogado sem-caráter. Ele ria, porque um bando, na rua, se juntou a outro que o vaiava para inflar o ego deste marginal içado à condição de ídolo e, agora, suspeito de mandar matar a mulher com quem teve, além de gozo, um filho. Ele ri. Ele debocha. Ele tem certeza de que vai ganhar habeas corpus, de que será inocentado de tudo e vai aproveitar as delícias dos contratos mafiosos em algum campo europeu, ou, quiçá, defendendo as cores do Brasil na Copa do Mundo.
Enquanto Bruno ria, uma garota de 15 anos dava à luz um bebê que, afirmou sua família, ela nunca anunciou ou deixou saber que tinha na barriga. O lugar que ela escolheu para parir? O vaso sanitário do hospital, onde o bebê, prematuro, ficou mergulhado por mais de 6 horas. Adianta desligar a televisão e fazer de conta, como quer Lula e seus bedéis, que este país é o paraíso graças às suas mãos sujas com tanta corrupção, leniência e abuso?
Não posso desligar a televisão. Não quero. Não vou.
Enquanto Bruno ria, um mecânico contava à polícia que a família do atropelador do filho de Cissa Guimarães deixou o carro (que conserva visível a marca do corpo de Rafael, destroçado no atropelamento) na sua oficina antes das 5 da manhã. A família do atropelador, um rapaz forte, bonito e frio, queria que o automóvel fosse consertado o mais rápido possível. Apagar as marcas do horror. Apagar as provas de seu crime.
Pior de tudo: não se nota um sinal que seja de tristeza, lamento pela morte de um ser humano, arrependimento, nada, no rosto do atropelador. Total frieza, total arrogância. Igual a Bruno.
O matador de Rafael por enquanto não riu para as câmeras, os jornalistas, o povão. Mas, seguindo a atual tendência do “mato e cago pro mundo”, vai rir, sim. E vai arrumar, se já não arrumou, um advogado ambicioso, em busca de holofotes mesmo que por suas ações negativas, pronto a defendê-lo e ainda afirmar que Rafael se jogou, de propósito, diante de seu carro.
Enquanto Bruno ria, os advogados de Mizael Bispo de Souza revelavam que Mércia Nakashima, alvejada e afogada em águas escondidas, tinha andado por uma área de traficantes. Já tinham, estes rebotalhos do Direito, mandado a polícia ver o que a assassinada fazia com um determinado colchonete no porta-malas de seu carro encontrado no fundo da água. A morta, afinal, deve ser inculpada de tudo.
E aí, então, a gente pensa: vou desligar a televisão, nunca mais leio jornal, vou cortar a internet. Serve, assim? Ah, se servisse e as mulheres deixassem de ser mortas como baratas por canalhas que, no caso de Bruno, ainda contam com a ajuda de outras mulheres, desgraçadamente. Se servisse o ato de se desligar do mundo, se ao menos um cara mostrasse uma sombra de tristeza nos olhos por ter atropelado e morto, mesmo que acidentalmente, um garoto de 18 anos, eu não estaria, numa sexta-feira ensolarada, escrevendo isso tudo. Isso tudo que é nada, porque nada vai mudar. Mesmo assim, escrevo. Torcendo para que Isabela, que tem menos de 3 anos de idade, que ri e enche de luz esta tarde com seu riso, seja o ícone de dias melhores.
