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Entre a dor e o egoísmo

Ainda não acordei do pesadelo. É como se eu ainda tivesse meus filhos pequenos, no colégio, e precisasse agir, imediatamente, pra proteger os dois. …

Ainda não acordei do pesadelo. É como se eu ainda tivesse meus filhos pequenos, no colégio, e precisasse agir, imediatamente, pra proteger os dois. Cheguei a sonhar que um monstro saía do meio do chão, primeiro insignificamente pequeno, depois imenso, e que ia engolindo famílias, enquanto eu caminhava com meu filho pela rua. Dá náusea ver e ouvir os choros das mães, dos familiares, dos amigos e das crianças que testemunharam a chacina, vontade de desligar televisão, não entrar nos sites de notícias, esquecer. Mas não tem como desligar este botão interno que liga cada um ao fato e às vítimas.

Vi uma profissional experiente e sempre serena,  Sandra Annemberg, se perder, literalmente, diante das câmeras, no Jornal Hoje, logo depois da exibição do vídeo sobre o enterro de uma das meninas assassinadas e da chuva de pétalas de rosa promovida por um helicóptero da polícia. Tenho visto profissionais de psicologia e de psiquiatria de diferentes correntes, psicólogos, educadores, jornalistas, todos perplexos repetindo e repetindo a carta do assassino,  explicações médicas, palpites, dúvidas. Nada explica, nada consola.

O corpo de Wellington Menezes de Oliveira, que calmamente foi executando crianças e adolescentes, até o momento em que escrevo estas linhas, não foi procurado por nem um parente, ou amigo, ou quem sabe, alguém com piedade suficiente para enterrar  um bandido imperdoável. E eu, e o país inteiro, aqui, sem nem saber direito o que escrever, tentando fazer meus trabalhos, tocar a vida, agradecer pela chance de nunca ter vivido um horror desses ao vivo.

Assisto a meus colegas, de diferentes veículos de comunicação, tentando cumprir sua obrigação profissional, alguns mais sóbrios, outros menos, mas todos, sem exceção, assinalando no que falam, no que escrevem, no que exibem na telinha, que estão, também, tristes, assustados e ainda incrédulos. E até aquele repórter que pergunta ao pai, que fala sobre o medo do filho, que estuda em escola particular, longe da cena do crime se este pai chorou, em vez de me irritar, como habitualmente acontece, ganha minha solidariedade porque ele também, que segura o microfone, com certeza quer também saber se todos se sensibilizaram e sofrem como se deve sofrer nessa hora.

Grades, mais guardas, proibir venda de armas com mais rigor, controlar a venda de armas com efetividade, evitar que se trafiquem armas, mais câmeras de segurança, funcionários mais atentos, treinamento de alunos diante de situações como essa, mais assistentes sociais com maior suporte do pai-Estado para tratar das feridas nas comunidades carentes, mais psicólogos para atentar aos sinais de um aluno problema e dos que cometem bullying, a lista é longa de ações para que isso nunca mais aconteça. Por enquanto, porém, é luto, é tristeza. Não consigo achar solução para nada. Só, egoisticamente, celebrar a vida dos meus filhos e dos filhos de meus afetos.

Autor

Maristela Bairros

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