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Escrever, mentir, lucrar

Ali pelas quatro da manhã desta sexta-feira terminei de ler o livro que minha filha me deu de aniversário faz uma semana. Um livro …

Ali pelas quatro da manhã desta sexta-feira terminei de ler o livro que minha filha me deu de aniversário faz uma semana. Um livro que vi várias vezes nas livrarias e fiquei com aquele sentimento dual ao ver o subtítulo “a busca de uma mulher por todas as coisas da vida …”, que me deu aquele enjôo prenunciador de auto-ajuda, e o selo “mais de 4 milhões de exemplares vendidos”, que me deu aquela inveja inevitável de quem sabe que não é necessariamente qualidade que vende. Mesmo assim, quando ganhei o registro de peregrinação sofisticada de Elizabeth Gilbert fiquei feliz. Principalmente porque ando relendo, como já contei, uma pilha de títulos da minha biblioteca por não ter nada novo para vasculhar.

Então, terminei Comer, Rezar, Amar, que foi lançado para os brothers and sisters em 2006, já está sendo filmado com Julia Roberts como a viajante cheia de grana e ó, céus, esvaziada de perspectivas sentimentais (isso me incomoda, arre, coisa muito fake!) e já tem um day after com a saga que conta o que houve depois do happy end da história da branquela Gilbert. O livro é legal, tem aquele tom de confidência intercalado por muita chupada de livro de turismo (que a gente não é tatu e saca, mesmo que bem refeito e repintado em cada linha de informação sobre história e monumentos dos lugares visitados) e impulsiona o leitor a ir adiante sem querer parar. Afinal, quem não gosta de dar uma fresteada nos problemas alheios, ainda mais se quem passa por eles é do tipo muiiiiito bem-sucedida e poderosa?

“Cheio de óbvios ululantes, o livro ainda tem, entre os absurdos imperdoáveis, um “darei-lhe” que ainda me coça o cérebro, na página 74, sendo que a frase é tão ruim quanto o erro que quatro (sim, quatro) revisores deixaram escapar:” darei-lhe um vale de sol e um vale de chuva”. Nem Paulo Coelho faria pior, vamos combinar. As duas primeiras partes, na Itália, em que la Gilbert só quis saber de comer, e na Índia, em que o melhor de tudo é um tal Richard do Texas (tem até foto no site dela, mas é duro de acreditar que o personagem não é um pastiche de vários e não um cara real) que proporciona frases tão boas quanto as das séries americanas como Friends e Two and a Half Man. Quando chega a parte final, porém, que se passa em Bali, a maionese desanda pra valer e dá para ir pulando de cinco em cinco páginas que não faz a menor diferença. Incluindo a descoberta de José Nunes, um brasileiro, que ela chama de Felipe no livro (que besteira, todo mundo sabe agora quem é o cara) e que diz que é do sul do Brasil!? Hmmmmm! Vendedor de pedras preciosas, será o moço da região ali de Lajeado?

Pois é neste final que la Gilbert pisa na bola. Ao se defender da possibilidade de voltar a casar-se, ela desafina ao pisotear as pessoas que optam por não ter uma atividade frenética. Quer dizer: aqueles que, como ela, batem perna por aí para ganhar fama, grana e poder. Madama é cruel: “… quando vejo uma cena dessas (NA: ela se refere a estrangeiros que buscam lugares como Bali e ficam, felizes em não fazer nada) sinto-me um pouco como Dorothy nos campos de papoula de Oz. Cuidado! Não adormeça nesta campina narcótica ou você pode passar o resto da vida cochilando aqui!” Ou seja: arrogantemente, ela pode fuçar a vida de muita gente para vender mais livros, trocando perna por ruas italianas, templos indianos e arrozais balineses; mas quem quer apenas viver sua vida, merece desprezo.

Tenho uma amiga querida que diz que não pode se aposentar porque se conhece, sabe que vai ficar em casa comendo doces, vendo filmes no canal a cabo e em DVD, que vai cultivar a preguiça. Como se isso fosse condenável. Dona Gilbert: eu acho maravilhoso levantar pela manhã sem ter preocupação em ir calçando um sapato no quarto e outro ao entrar no carro, ter de enfrentar trânsito do inferno e estacionamento pago em ouro ou ônibus fedido, depois chefes que começam elogiando e dando carta branca para se fazer o que for preciso e, em dois meses, fazem cruz com os dedos quando você passa em direção ao elevador. Sem contar aqueles colegas que não tomam banho e depois de usufruir de várias e várias caronas empestando o seu carro, se voltam contra você se mancomunando com colegas cujo maior talento é sabotar o trabalho alheio. Por estas e por outras, continuo brigando com o INSS, dona Gilbert, que quer me ferrar mas com certeza, vai sair bem ferrado. Aí, então, eu é que vou sair por aí, gozando meu dinheiro justo, mas sem a menor obrigação de virar best-seller.

 

Autor

Maristela Bairros

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