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Escritor fora dos eixos e fora do eixo

Sérgio Fantini disse, numa entrevista recente, que o eixo Rio-São Paulo é como assombração, só vê quem acredita. É vero? Vejamos. Em 2001 ou …

Sérgio Fantini disse, numa entrevista recente, que o eixo Rio-São Paulo é como assombração, só vê quem acredita. É vero? Vejamos.

Em 2001 ou 2002, me cantaram pra escrever uma matéria sobre os novos escritores pra revista Vox, editada nos tempos do governo Olívio Dutra. Li uns oitenta livros, o que é pouco, sei, muita gente ficou de fora, como a Índigo ou o Roberto Luiz Guedes, digamos, pra citar dois sem ter de pesquisar. Exceto uma meia dúzia aqui do sul, o resto era do Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente de São Paulo. Acabei não escrevendo a matéria por dois bons motivos: o primeiro, minha incompetência jornalística e crítica; segundo, minha covardia. Sabem o que é falar mal de uns setenta livros numa pegada só? Se fossem de autores mortos, com herdeiros morando longe, vá lá. Ou se eu soubesse encher dez páginas sem dizer nada, como tantos acadêmicos e críticos profissionais.

Entre os oito ou dez autores que me interessaram, poucos se tornaram conhecidos nos anos seguintes, como Marçal Aquino, Amilcar Bêttega, Michel Laub e Sérgio Rodrigues. Às vezes vejo alguma referência a Cadão Volpato ou Claudio Galparin, mas nada que os bote no mapa. Bueno, como Miss Danúbio e O amor e outros objetos pontiagudos me pegaram de jeito, escrevi pro Marçal pra saber se tinha outros livros. Não tinha, na época, mas me perguntou se eu conhecia o Sérgio Fantini. Eu não conhecia, o que não é estranho, porque o Fantini mora em Belo Horizonte e publicou tudo por conta própria ou com editoras pequenas. Se a distribuição das grandes editoras já é um negócio complicado, imagina a de edições independentes. Daí o Marçal falou com o Fantini e um belo dia recebi Materiaes (Edições Dubolso, 2000). Foi assim que, sem me deixar ofuscar pelas assombrações de praxe — selos prestigiosos, jornais de grande circulação —, descobri um escritor e ganhei um amigo.

Materiaes

O livro é três em um: Diz xis, Suíte Bar e Rugas.

Diz xis é uma novelinha com sexo, drogas & rock and roll, texto ágil e seco. Tem um arzinho autobiográfico, mas não dá pra confiar. Fantini é do tipo que viveu de tudo, pode se colocar em qualquer papel e é craque naquilo que uma personagem do Nabokov censura nos escritores: juntar pedaços de gente e de fatos e nos dar uma bela almôndega. Ele nunca descreve o personagem, Silas, que vai se revelando pra gente aos poucos, sem ênfase. Isso, sabe-se, não é pra qualquer um. Há ainda uma atmosfera sinistra, parece que basta apurar o ouvido pra distinguir a trombeta do anjo vingador em meio à cantoria e ao batuque do carnaval.

Suíte Bar. Contos sem títulos, como se fossem capítulos de uma novela. Como dizia o humorista argentino Roberto Fontanarrosa, livro de contos é como CD: tem dois temas fortes e o resto é enchimento. Não aqui. A clientela desse bar é seleta. Contos curtos, em que acontece quase nada, só um cara bebendo sentado num canto, gente passando, coisas assim. Mas está tudo ali: a pessoa, a atmosfera, o desencanto, o bar, a noite ou o dia.

Fantini ainda tem umas bossas narrativas, às vezes, mas sempre divertidas, coisa abençoada, já que muita gente boa confunde vanguarda com encher o saco do leitor. Um exemplo curtinho: “Que o homossexual conhecido como Deínha brincou o carnaval Que ele se fantasiou de mulher Que sua fantasia era uma longa saia rodada com lantejoulas e brocal Que as lantejoulas e o brocal formavam desenhos lindos Que sua fantasia era também uma camisa de seda branca”.

Rugas. Novelinha mais premeditada, sem as andanças de Diz xis, com um texto exato e igual. Várias versões de uma mesma cena: um homem bebe, se atrasa pra um encontro, a mulher prepara a janta romântica. Às vezes transam. Mas nunca é muito satisfatório. Sei, esse resumo é injusto. Fantini não fala da sensação de agonia de um homem se debatendo com o cotidiano. A novelinha é essa sensação, capisci? E de um modo inescapável. Se em Diz xis, o anjo vingador estava na rua com sua trombeta, agora já foi embora, o mundo acabou e nossa memória, a um segundo do sono, tenta lembrá-lo, a agulha arranhando nos mesmos lugares.

A ponto de explodir

Em 2008, Fantini reuniu os contos desse volume, numa edição independente. Releia minha frase e fique um minuto em silêncio.  É ou não é a sentença de morte de um escritor? Contos, nos garantem, são pouco lidos. Edição independente? Vade retro, Satanás.

Sabe o que fiz agora mesmo? Pedi no Google uma lista dos cinquenta melhores livros brasileiros publicados em 2008. Você viu nela A ponto de explodir? Nem eu. Mas vi vários empulhadores, tipo João Gilberto Noll e Nuno Ramos. Pelo menos lá estavam Dalton Trevisan e Luiz Vilela. E uma das melhores promessas dos últimos anos: Vanessa Bárbara.

Nesse livro, o texto de Fantini se soltou de vez. Seguimos as frases sem esforço nenhum, sem nem nos darmos conta. Está mais coloquial e continua não dando mole pra literatura. Na melhor tradição americana, Fantini chega às emoções e aos pensamentos de um modo indireto, pelos detalhes do ambiente, pelos gestos. Tem uma fala mansa, nunca pretensiosa, nunca obscura, nunca visando o aplauso da galera. Isso no fundo é um perigo: muito leitor apressadinho pode não se dar conta de com quem está se metendo.

Ainda bem que a pequena editora Jovens Escribas — ora veja, de Natal, RN, mais fora do eixo impossível — vai reeditar este ano ainda A ponto de explodir. Edição revista e diminuída, pelo que sei. Essa mesma editora publicou, em 2011, Silas, uma reunião de todos os contos em que aparecia o personagem Silas, inclusive Diz xis. Destaque pro inédito “Silas, 30 do 20 tempo”. Só esse conto vale o ingresso.

Novella

A Jovens Escribas, que não dorme de touca e publica vários velhos escribas, lançou há pouco Novella. Quem quiser saber por que o título em italiano que compre o livro. A leveza, a rapidez e a naturalidade de Fantini parecem ter aumentado ainda mais. Assim, o perigo de desorientar os leitores do Enem é maior. Logo abaixo, a prova dos noves, um conto bem curto, pra não assustar ninguém.

Em “Muito silêncio (por nada)”, Fantini retoma a forma de Rugas: versões e mais versões de uma cena. Agora é o primeiro encontro de um casal. Fora os chutes no saco dos românticos, é preciso notar a absoluta maleabilidade do texto e das tramas, fundo e forma sendo uma coisa só, como deve ser. Nunca se nota esforço nenhum, mesmo depois de cem metros rasos lomba acima. É o cantor lírico dando uma de João Gilberto, me entende?

Lalona

de Sérgio Fantini

Todo mundo comeu Lalona.

Até Obira comeu, o mais surpreendente: magro, cambota e barrigudo; falhas doentias de cabelo na cabeça grande demais pro corpo miúdo; sempre tossindo e fumando; calado e meio gago; roupas velhas, mas limpas e sem vida; e chato, nossa, como Obira é chato – eu sei que ele, além de invejar Dulindo, também comeu Lalona.

O Pata. Não era de se esperar, mas também. Foi quando cheirou pela primeira vez. Estava falando mais que o normal e ele fala muito, muito mesmo, mais que rico ao sol, como dizia Nabor. Fala pelos cotovelos, pelos joelhos, pelos pés; com as mãos, os olhos, a cabeça; putz, imagine, o Pata, que odeia Tomazinho.

Dulindo é brincadeira. Esse come todas e mais algumas e, vá saber, mais alguns. Boa pinta como é, metido a gostoso e, ok: o cara tem um baita charme; sempre bem aparado; fala mansa e conveniente e aquele sorriso bobo; piadinhas ao gosto do freguês; bronzeado até no inverno; gentil, cortês, disposto. Dulindo era bola certa, apesar de ser doidinho pela Mulher Vulgar.

Acho que Teodolito seria o menos provável, nunca ninguém pensaria isso dele, por ser casado e trazer uma placa na testa: sou fiel. Mas, ah, alguém deve ter visto os dois saindo do motel onde ela sempre leva seus cachos. Então, é claro que o gringo sem comunicação com o mundo exterior ao da maconha também foi, quem diria, sem sal daquele jeito, bestão, é, quem diria, mesmo tendo dívidas enormes com o Pata.

O mais surpreendente mesmo foi saber da Mulher Vulgar, que não rejeita nada que possa lhe dar prazer, todo tipo de prazer, seres vivos e objetos de qualquer gênero, cor, idade ou tamanho. É que Lalona sempre me pareceu hétero convicta. Bom, mas enfim, quem pode entender o coração de uma mulher? E de duas, então? O certo é que a Mulher Vulgar, rejeitada três vezes por Obira, também desfrutou do corpo de Lalona.

Tomazinho, puxa, até ele. Certa noite, depois de baixar metade da porta, recebeu a visita inesperada. E ali mesmo, no chão encardido, entre as mesas ainda por arrumar, se serviram um do outro até quase de manhãzinha, apesar dele saber que eu existo.

Bom, eu também comi Lalona. Comi e ainda como, ela exige, diz que casou por amor. Eu acredito.

Autor

Ernani Ssó

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