Colunas

Escritores, escritores, escritores

Robert Louis Stevenson: Não li nem na infância nem na adolescência. Vítima de um desses azares bastante comuns no autodidatismo, topei com “A ilha …

Robert Louis Stevenson: Não li nem na infância nem na adolescência. Vítima de um desses azares bastante comuns no autodidatismo, topei com “A ilha do tesouro” apenas aos vinte e cinco anos. É uma pena, me digo às vezes, pensando no menino que fui. Mas Stevenson tem uma vantagem tremenda: qualquer idade é a idade certa para se ler Stevenson. Ao contrário de muitos grandes escritores, Stevenson é um amigo que temos para sempre, um amigo muito inteligente e muito simpático com quem podemos aprender a olhar de modo diferente.

Agatha Christie: Acho a velha dama boa numa coisa: na sátira da classe média alta. No mais é aquilo, truques baixos e uma superficialidade mortal. Mas depois de ler a autobiografia dela, passou minha vontade de esganá-la num beco escuro. Ela sabia direitinho quem era e deixava o ônus de ser levada a sério para os Tiriricas.

Gustave Flaubert: “Acho que se olhássemos sempre para o céu, acabaríamos tendo asas”. Acabaríamos com um problema sério de cervical, isso sim.

Roberto Bolaño: Depois de muito esforço, terminei “2666”. Não tenho nada a dizer fora o que já disse. As duas partes que me faltavam repetem os mesmos erros das outras. A chamada parte “dos crimes” é de um tédio irremediável, até alguns admiradores ferrenhos do Bolaño engasgaram.

Mas uma coisa continua me intrigando: como Bolaño é considerado o grande escritor latino depois de Borges? Pra não ir mais longe, qualquer coisa do Piglia é melhor que o melhor do Bolãno. A Argentina devia começar uma campanha.

Toda a fama do Bolaño é extraliterária. Enfim, que os editores e livreiros incentivem um engano desses para faturar se compreende, que resenhistas tiriricas embarquem nele também, mas conheço gente grande, escritores que eu jurava que entendiam de literatura, assinando embaixo. Sérgio Rodrigues me disse que nós, os descontentes, somos em maior número do que se pensa. Se é verdade, onde nós andamos?

Vera Fischer: Não é brincadeira minha, não: ela não só é escritora, como despachou dez romances em um ano. Simenon que se cuide. A Vera disse que cada romance conta com pelo menos uma viagem ao exterior. É que ela “não escreve pra pobre”. A vida dos ricos é mais interessante. Hummmm. Sempre senti falta dos ricos na literatura brasileira, mas me parece que a celebrada e coxuda escritora está confundindo escrever “para pobre” com “sobre pobre”. De qualquer forma a Academia Brasileira de Letras deve estar com as portas abertas.

Julio Cortázar: Estou relendo “Rayuela”, talvez pela vigésima vez. O problema central do Cortázar é metafísico, o que a mim — índio grosso uma barbaridade — não diz grande coisa, mas mesmo assim eu sou vidrado nele. É que há muito mais além da metafísica, como histórias de uma comicidade endiabrada e a luta permanente contra todo tipo de clichês, de linguagem, narrativos, psicológicos. Recomendável a jovens candidatos a escritor, uma espécie de vacina contra a literatura.

Adriana Lisboa: Em “Sinfonia em branco”: “(O cachorro) voltou a cabeça e viu a porta aberta atrás de si e teve um pressentimento canino diante do qual sorriu um sorriso canino, invisível de tão suave”. Ai, ai, ai, ou au, au, au.

Fernanda Young: Na orelha de “Carta para alguém bem perto” se diz que as histórias de Fernanda são tão freudianas quanto quânticas. Palavras bonitas demais pra classificar o desleixo, a superficialidade, a forçação de barra. A quem essa moça espera enganar? Sexo: é tratado com a delicadeza de um baile funk.

Sérgio Fantini: Não acontece muita coisa nos contos dele, só um cara bebendo sentado no bar, gente passando, coisas assim. Mas está tudo ali: a pessoa, a atmosfera, o desencanto, o bar, a noite ou o dia. Você não conhece? É que ele não é tatuado como a Fernanda Young.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.