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Escritores malditos

De tempos em tempos volta à moda escritores se intitularem malditos ou marginais. É meio como a volta do bambolê ou das calças boca …

De tempos em tempos volta à moda escritores se intitularem malditos ou marginais. É meio como a volta do bambolê ou das calças boca de sino. A volta do bambolê eu entendo. Faz as moças requebrarem. Requebrar é bom pros quadris delas e pros olhos dos marmanjos. Mas calça boca de sino não tem salvação, se os grandes costureiros me permitem o palpite.

Há escritores que se dizem malditos porque não são levados a sério pela imprensa de Rio e São Paulo, como se a opinião da imprensa de Rio e São Paulo não fosse a mesma droga que se lê na imprensa do resto do país, apenas mais posuda e pretensiosa. Se não ser levado a sério pela imprensa é sinal de maldição, Paulo Coelho é maldito, não? É provavelmente o escritor brasileiro que mais pau levou da crítica.

O diabo é que muitos desses que se intitulam malditos têm um bom emprego público, ou coisa parecida, sem falar que são convidados para dar palestras em cidadezinhas do interior. É realismo mágico, não? Só mesmo nos tristes trópicos um escritor maldito dá palestras em cidadezinhas do interior e ainda é muito aplaudido.

Mas veja bem: eu não tenho nada contra o público do interior. Conheço muita gente inteligente que vive no interior e conheço muito imbecil de cidade grande. O ponto é outro. Esses tais escritores malditos são convidados a dar essas palestras pelas autoridades locais. Realmente deve ser uma maldição brutal o cara ser levado a sério por autoridades quase sempre mal alfabetizadas. Não levado a sério no sentido de pegar uma cana dura, bem entendido.

Há escritores que se dizem malditos porque vendem poucos livros. Faço minhas as palavras do poeta português Alberto Pimenta: “(Marginal é) Uma pessoa que foi empurrada pela sociedade para a marginalidade. Pessoas como nós, que têm uma maneira de ver menos conforme mas que se comportam socialmente de forma natural, não se pode dizer que sejam marginais. Temos poucos leitores, apenas”.

Eu só conheci um escritor maldito. Os livros dele não são bons. Mas, por causa deles e por causa de seu comportamento, foi preso pelos milicos, junto com a mulher. Os dois foram torturados — ela devidamente estuprada —, perderam os empregos de professores e hoje perambulam por aí, sem perspectiva nenhuma, sobrevivendo com uma pensão vagabunda.

Caixa de comentários

Com essa fofoca do Paulo Coelho com o Joyce, andei lendo montes de comentários de leitores em vários blogs. Apesar de meus nervos de aço, fiquei abalado. Uma caixa de comentários pode ser pior que uma descida naquele maelströn do conto do Poe. Pra cada meia linha de lucidez há trinta, quarenta linhas de confusão mental — e carregadas de violência ainda por cima. Se Cristo não voltar logo e salvar a humanidade, estamos fritos em pouca banha.

Deu no UOL

“Qual a mais linda americana clicada na hora da prisão?” Bem, se o negócio é espetáculo, por que tanta timidez? Por que não qual a mais linda americana clicada durante um estupro? Qual a mais linda americana clicada ao dar entrada no Instituto Médico Legal com as tripas pra fora? Qual a mais linda americana clicada ao ser sepultada sem calcinha? Qual a mais linda americana clicada enquanto se tornava obesa mórbida comendo apenas hambúrguer?

Língua

Num esforço titânico, li um romance chatinho e pretensioso — As correções, do Jonathan Franzen. Pra me tirar totalmente do sério, topei, mais de uma vez, com construções do tipo: “Ele se tinha sentido mal”. Acho que a Companhia das Letras devia distribuir aparelhos auditivos para alguns revisores.

PS: Sem falarmos que a expressão “déficit de atenção”, que a psicologia botou na moda nas últimas décadas, foi traduzida por algo como “deficiência de atentamento”.

Autor

Ernani Ssó

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