Colunas

Espanha x Urnas

Uma cerca metálica cobre a fachada da sede central da Edersur, filial argentina da multinacional elétrica espanhola Edesa, no centro de Buenos Aires. Foi …

Uma cerca metálica cobre a fachada da sede central da Edersur, filial argentina da multinacional elétrica espanhola Edesa, no centro de Buenos Aires. Foi colocada há cinco anos no “Tangaço”, depois que piqueteiros atacaram a empresa, destruíram suas grandes paredes de vidro e incendiaram o edifício. Agora, um grupo de trabalhadores tenta abrir “janelas” na cerca. “Queremos mostrar que viemos para ficar”, diz o presidente da Edersur, José Maria Hidalgo.

Se ouvisse o embaixador espanhol em Buenos Aires, Carmelo Aguilo, Hidalgo pensaria duas vezes antes de destruir seu bunker. “As empresas estão encostadas nas cordas e pedem proteção ao Estado espanhol”, diz Aguilo. Na visão do embaixador, quem as está empurrando para as cordas? “A um terremoto político segue-se um terremoto econômico”, sintetiza. São as eleições de Evo Morales, na Bolívia, de Andres Obrador (talvez líder nas pesquisas no México), Ollanta  Humala no Peru, Nestor Kirchner, na Argentina, Michele Bachelet, no Chile,  a permanência de Hugo Chavez, na Venezuela, e, vá lá, os discursos de Lula da Silva e do ressuscitado Fidel Castro.

Da Terra do Fogo ao Caribe, o deslocamento político latino-americano para a esquerda ou centro esquerda situa os interesses espanhóis sobre um solo que adquire o aspecto de um campo minado. Segundo El País, “os povos se cansaram das políticas neoliberais que não lhes trouxeram vantagens”.  Por exemplo, o aumento unilateral das tarifas de água, luz, telefone,etc.

Na busca do ouro

A primeira investida dos espanhóis na América Latina foi em busca do ouro puro. Na segunda, há dez anos, de terno e gravata, dentro do chamado neoliberalismo, as grandes empresas foram recebidas como os “Três Reis Magos”. Hoje, 36% dos argentinos são contra a presença espanhola, que agora veio com a expectativa de dólares. Os 36% são suficientes para provocar motins? “A América Latina é muito importante para nós”, afirma Canuto Angulo, empresário do ramo de eletricidade. “Estamos jogando nossas aposentadorias.”

O mercado latino-americano contribui, entre outras empresas, com aproximadamente 49% dos lucros do BBVA, 35% do Santander, 41% da Telefonica, 45% da Repsol YPF, 23% da Endesa, e 7% da Acelor  Representam 5,2% do PIB espanhol. Os efeitos sobre os ingressos, consumo e emprego seriam muito maiores.

A safra bancária

Os bancos espanhóis entraram maciçamente na América, aproveitando a brecha dos americanos que fugiram depois do “tequilaço” do México, com uma perda de US$ 300 bilhões. Essa situação, sem grandes concorrentes, facilitou um frenesi comprador de Espanha. Em 1997, o Santander adquiriu 27 instituições, entre elas o Banespa, por US$ 12,3 bilhões, e o BBVA, 34 entidades financeiras  por US$ 7,6 bilhões. Emílio Oliveros, conselheiro delegado da Analistas Financeiros Internacionais (AFI), lembra que a arrancada do negócio bancário foi muito prudente e começou  pela domicialização bancária dos recibos.

Um país menor

Para o professor Muro F. Guillón, de Salamanca, a Espanha precisa ser útil à América Latina. “A imagem é o calcanhar de Aquiles da Espanha na atualidade.” Maria Figa, diretora de Relações Econômicas Internacionais, diz: “É preciso levar em conta a miséria ancestral e a marginalização dos indígenas”. Apesar de sua expansão econômica, a Espanha encontra-se fora dos centros de decisão. O país não está no G8, nem no G10, embora o ex-ministro Rodrigo Rato ocupe atualmente o cargo de diretor da FMI.  Tampouco é membro do Conselho de Segurança. Se a frente de centro-esquerda decidir radicalizar, qual será a situação da Espanha, não só frente a uma nova investida, mas na sua importância no contexto internacional. 

Autor

Iara rech

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.