Esqueceram de mim, diria o passado. O passado dos clubes de futebol brasileiros, centenários. O que reúne torcedores em torno de um escudo são as glórias. As glórias passadas servem para cativar os torcedores antigos, que trazem para junto das agremiações os seus filhos, sobrinhos, etc. As glórias futuras são a garantia desta população de torcedores, em torno das bandeiras e cores. E também garantia de lucros para os clubes, se souberem explorar suas histórias.
Agora mesmo, está havendo um homicídio às memórias de muitos clubes. Com a construção de novos estádios, os antigos estão sendo ou serão demolidos. Porém, naquelas arquibancadas, naqueles gramados, naqueles vestiários e casamatas é que foi escrita a história de cada um dos times. Foram derrotas, vitórias, conquistas, gritos de guerra, brigas e abraços. Torcedores que por anos sentaram nas arquibancadas duras(e, no caso do Sul, geladas) para ver e apoiar seu time, fazê-lo dar o melhor de si. Enquanto eles mesmos, torcedores, davam o seu melhor. O seu melhor grito, a sua melhor vibração, a sua melhor energia. E assim foram construídas as histórias de clubes e de estádios. E assim foram construídos inclusive muitos dos estádios que estão sendo demolidos. Por este processo coletivo de vibração, crescimento e parceria entre torcedores e clubes.
Seria natural portanto que os clubes ou administradores dos estádios fizessem tal quando esprememos uma laranja: tirassem todo o suco possível deste passado e entregassem uma belíssima laranjada mnemônica, saborosa e com enorme poder comercial aos torcedores. Então, vejamos: os torcedores estariam interessados em ter uma pequena lembrança do estádio onde cresceram, vibrando e torcendo pelo seu time do coração? Certamente que sim. Um pedaço da arquibancada. Uma lembrança do vestiário. Uma parte do gramado. Traves da goleira. Claro, não podemos pensar no produto isoladamente: ele deve fazer parte de um contexto, onde estará junto um DVD ou cd, contando a história do clube ou estádio, narrações de gols históricos, imagens históricas, tudo em um kit altamente atrativo mas com preço acessível. Porque um erro que ainda é cometido pelos clubes de futebol é entregar ao torcedor o produto “seco”: uma enorme marca do clube aplicada no produto e este sem qualquer informação histórica. (Com as exceções de réplicas de camisetas, camisetas comemorativas, etc). Vende o produto sem nenhuma informação? Claro que vende. Mas poderia vender MUITO mais se houvesse por parte do clube uma base de informações. O futebol é energia, vibração. O futebol faz uma arquibancada ter sentimentos, faz ela vibrar e se tornar parte do coração do torcedor. Quando este se vai, quando os refletores são apagados, somente aí a arquibancada volta a ser concreto.
Mas deixando de lado o aspecto puramente comercial, há o aspecto de preservação da memória dos clubes. Os clubes SÃO as suas histórias. É mais ou menos na linha robertocarlosiana do “Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi.”. Um clube só tem sentido como emoção. Uma catarse coletiva. Só faz sentido torcer por um clube pela emoção que sinto ao fazê-lo. O aspecto racional está totalmente alijado do processo de paixão por um clube de futebol.É pura emoção. E, no caso dos estádios, está virando pó. Ferro retorcido. Arquibancadas vindo abaixo. Junto com elas, a memória vira um pouco de pó também. Vão se perdendo as pequenas e grandes alegrias(também as frustrações), que são sentido da vida. Junto com elas, perde-se um material riquíssimo. O passado dos estádios e clubes está mais do que sendo esquecido: está sendo renegado. Não é só o novo, no caso dos estádios, que é bom. Os estádios só estão sendo erguidos porque o passado lhes sustenta. O valor dos clubes foi construído ao longo de décadas. Milhões são investidos na construção pelo passado dos clubes, estando este a espreitar pela fresta que quer se fechar, do escritório da insensibilidade dos dirigentes do futebol brasileiro. A história dos clubes está sendo(parte dela, é claro) derrubada junto com o concreto, com o ferro. Não podemos deixar que haja um olhar insensível a uma questão tão importante. Memória, num país onde ela é tão fraca! Ou vamos deixar passar, vamos esquecer?
Meu convidado especial desta semana é o jornalista Mário Marcos de Souza. Ele tem uma longa carreira, apesar da pouca idade. Texto de qualidade, que me tornei fã quando esteve na Zero Hora e sigo agora, em seu blog, do qual sou assinante(http://mariomarcos.wordpress.com/). Ao Mário Marcos, meu muito obrigado!
Quando o Inter decidiu vender o Estádio dos Eucaliptos, fiz uma coluna em Zero Hora pedindo que construtores e clube pensassem em um memorial. Poderia ser algo simples, um monumento feito com pedras do estádio, por exemplo, como lembrança de que ali houve dois jogos da Copa do Mundo de 1950. Fiz o mesmo apelo quando soube da decisão (correta) do Grêmio de trocar o Olímpico pela moderna Arena. O velho estádio não pode simplesmente desaparecer ou ficar apenas na memória coletiva. Por ali passaram personagens que comoveram pessoas. Espero que o Grêmio pense nisso pouco antes da demolição do Olímpico. Vale o mesmo para o Maracanã, hoje absolutamente descaracterizado, e para todos os outros velhos estádios. No gramado de cada um deles, nas arquibancadas carregadas de paixão, foi construída a história do futebol brasileiro. São marcos – e eles não podem sumir em um monte de entulhos.

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