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Essa é a grande verdade

Esse é um bordão de um apresentador de TV, naturalmente de TV aberta. Ou seja, ele quer ser definitivo ou, pra ser mais específico, lacrador. E na verdade, se formos pensar, ele tenta com isso de uma certa forma arbitrária, acabar com qualquer argumento posterior ao que ele mesmo diz.

Essa é uma certa tendência entre as pessoas, quererem ser as lacradoras da ocasião. Darem a última palavra, sem espaço para contestação. O que não deixa de ser arbitrário, autoritário. 

Claro que se formos pensar mais a fundo, parte das construções intelectuais do ser humano são arbitrárias. Posso citar o caso da utopia, que não deixa de ser arbitrária, fechada. Ela não tolera nada que seja fora do momento mais idílico, o paraíso em si, um mundo perfeito. Qualquer coisa que fuja a isso não é tolerado ou nem mesmo levado em consideração.

Vários modelos ou construções mentais ao longo dos tempos seguiram essa ideia. Porque de fato, as imperfeições e as coisas fora de lugar são mais difíceis(ou, se não mais difíceis, mais trabalhosas de lidar). A imperfeição presume dois aspectos: primeiro, a não aceitação idealizada de perfeição. E depois, de que assim como os demais, somos falíveis, imperfeitos, incompletos, talvez.

Então, voltando ao ponto do início, a pessoa que diz que essa é a grande verdade na realidade está dizendo que não há “perfeição” possível depois dessas palavras que diz. Nada mais a tirar, nada mais a colocar. O perfeito, seja ele qual for e em que assunto, está dito. O totalmente bem acabado, o incontestável, o que está totalmente em seu lugar. 

Mas estamos tendo, desde o início da pandemia, o maior espaço para nos depararmos com a imperfeição jamais ocorrida. Um vírus torna as pessoas vulneráveis, em alguns casos mata, torna vulneráveis em termos de saúde física e mental, em termos de economia, em termos também (e não menos importante) de questionar se a vida que vínhamos tendo, tanto com os valores quanto com as premissas e organização cotidiana é a que mesmo vale a pena. E na verdade, acredito que ainda não tenhamos chegado(se é que chegaremos) a uma resposta, ou ao menos uma só.

Então, se me fizessem a pergunta relativa ao título, eu poderia responder que talvez conheça algumas “grandes verdades”: que viver é difícil(o quanto é difícil vai variar bastante de pessoa pra pessoa, de condições de vida, local do planeta, etc), que criar filhos dá trabalho(mas é muito bom, assim como viver também é muito bom), que a natureza tem em princípio os seus tempos, embora estejam sendo feitas iniciativas e pesquisas no sentido de acelerá-la.

Enfim, mas que no mais das vezes, uma grande verdade não há, talvez e muito mais, grandes mistérios. Uns, aprendemos a conviver. Outros, nunca saem da mente da gente. 

Autor

Flavio Paiva

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