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Estágio, fundamental na formação jornalística

Desde 25 de setembro de 2008, os estágios devem respeitar a Lei nº11788, de autoria do senador Osmar Dias (PDT/PR).  Ela substituiu a Lei …

Desde 25 de setembro de 2008, os estágios devem respeitar a Lei nº11788, de autoria do senador Osmar Dias (PDT/PR).  Ela substituiu a Lei nº6494, de 1977, e instituiu novos direitos para os estagiários, como o recesso anual de 30 dias e o limite de seis horas diárias de trabalho. Resolvi abordar este assunto na coluna por considerar que o estágio é fundamental e, mais que isso, indispensável à formação de um bom jornalista. É no aprendizado que será forjado o perfil do profissional do futuro.

A lei atual realmente oferece alguns benefícios que não havia no passado, como horário definido, folga, seguro de vida, vale-transporte e, até mesmo, uma espécie de ‘férias’ ao cabo de um ano. Algumas empresas chegam a oferecer plano de saúde. Mas não são estes aspectos que pretendo abordar nesta coluna, embora sejam importantes para dar mais tranquilidade aos futuros comunicadores, sejam eles jornalistas, relações-públicas, publicitários, marqueteiros, etc. Refiro-me ao chamado ‘modus operandi’ em uma redação, agência de publicidade, escritório de marketing ou assessoria de imprensa.

Em primeiro lugar, ser estagiário deveria ser uma espécie de etapa de orgulho estudantil-profissional. Vivemos naquele mundo do pré-paraíso. Para ser um bom estagiário é preciso QUERER ser estagiário, entender o que significa esse período em nossas vidas, saber que somos, sim, muito importantes dentro de uma estrutura empresarial e que não estamos ali apenas para cumprir um período obrigatório ou para eventualmente ‘tapar buracos’, fazer o que os veteranos e experientes não querem fazer ou ser ‘pato’ em algumas brincadeiras.

Sempre tive orgulho de ser estagiário, pois nos dois veículos onde vivi essa etapa, uma bem curta, no Diário de Notícias e outra mais longa, em Zero Hora, nos anos 70, sempre fui respeitado, jornalisticamente falando, porque do ponto de vista funcional só tínhamos direito a uma ajuda de custo… e nada mais. Mas valia a pena mesmo assim. E como valia. Afinal, estava lá sabendo que iria errar, mas seria orientado e conseguiria apreender. E, além disso, existia o prazer de conviver com as feras do jornalismo da época. Isso não tem preço. E é isso que os jovens estagiários precisam aprender: aproveitar o convívio com quem sabe das coisas.

Também tive sorte porque no período de estágio em ZH havia dois profissionais pelo crivo dos quais passavam os textos antes de chegar aos editores Mauro Toralles, o Boró, ou o Antônio Oliveira.  Estes dois profissionais, Luiz Fernando Valls e José Raimundo Manosso eram chamados de copydesks ou copidesques, que apontavam com paciência e, às vezes, uma fina ironia algumas atrocidades jornalísticas. Ou eram pleonasmos, lugares-comuns (tão em moda em alguns colunistas atuais que adoram dizer que as até as palmeiras da Avenida Getúlio Vargas sabem…), nariz-de-cera e outros deslizes. O jornalismo foi mudando, a estrutura também e os copidesques foram suprimidos. Os estagiários que tiverem sorte de encontrar um chefe de reportagem, subeditor, ou coordenador, seja lá nome que tiverem, interessados em acompanhar, orientar e ajudar na formação de um futuro jornalista, podem se considerar felizes. São raros.

Nas ocasiões em que fui subeditor ou editor, sempre procurei fazer o papel de orientador, pelo menos naquilo que eu entendi bem. Creio que contribui para a formação de muitos profissionais que hoje brilham no nosso jornalismo. Difícil mesmo foi no serviço público. Lá, o que basicamente faz um estagiário é quase um pós em clipagem e taxação. No jornalismo ativo de uma assessoria no serviço público, a atividade do estagiário é burocrática: ele praticamente não entrevista, quase não escreve, exceto pequenas notas para um site interno. E a reportagem, que é o orgasmo do jornalista, onde fica? Então, tanto o estágio como o próprio exercício do jornalismo no serviço público é, na maioria das vezes, frustrante. Mas também tem seu valor, não resta dúvida, desde que o estagiário não seja um estudante (e futuro jornalista) acomodado e sem preocupação em evoluir.

Então, senhores estagiários, tenham orgulho do que fazem, independente de estarem cumprindo esta atividade no maior e mais importante dos veículos da sua região, na maior agência ou no mais modesto jornal da associação do seu bairro. Seja honesto consigo mesmo: faça o que tem que fazer da melhor maneira possível, como se estivesse fazendo a matéria de capa ou a propaganda do ano. É uma fase que passa e, certamente, no futuro você sentirá saudades destes tempos de aprendizado.

Autor

Julio Sortica

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