Colunas

Eu, avalista

Onde estava com a cabeça quando concordei em dar um aval praquele cara?

Eu o conhecia vagamente nos corredores da redação, com algumas trocas de acenos de cabeça, um boa tarde respeitoso, coisas simples assim. Trabalhávamos no mesmo prédio antigo no centro da cidade, ele redator de um jornal vespertino, eu repórter de um matutino, os dois diários convivendo irmãmente naquele espaço em que imperava o ar viciado pelos odores de máquinas de impressão, dos cigarros em profusão e dos cafés, muitos cafés.

Nossos encontros eram fortuitos, efêmeros, às vezes no ingresso simultâneo pela portaria, outras no refeitório, mais frequentemente no elevador. Certo dia até compartilhamos o mesmo lanche, um cafezinho e um quindim para cada um. Havia ali pouca comunhão de interesses, apenas o acaso de estarmos ao mesmo tempo no mesmo lugar. Um dia precisei esclarecer a frase ambígua de um entrevistado e foi ele, outra casualidade, quem estava ao lado e, com a sabedoria adquirida com o passar de anos atrás de um computador, soube decifrar o imbróglio com naturalidade.

E assim foram se sucedendo os encontros fortuitos seguidos de conversas triviais, até que, num desses dias comuns no refeitório da empresa, ele se aproximou com seu jeito de homem vivido e um certo olhar esperto. Sedutor, simpático, gentil, contou de uma forma divertida que estava se mudando de apartamento e enfrentando os perrengues naturais que uma situação destas apresenta a qualquer comum mortal. Era um bom contador de histórias, fazedor de boas piadas sobre os boletos que infernizam a vida do assalariado.

Conversa vai, conversa vem, deu a punhalada – quer dizer, fez o pedido, que só mais tarde me dei conta de que era isso, uma punhalada. Estou com tudo certo para comprar o roupeiro novo, ele disse, mas já tive muitas despesas, comprometi meu limite no cartão, e estou tentando um empréstimo para resolver essa bronca. Será que você poderia me ajudar? Preciso apenas de um avalista, o resto já está tudo nos conformes.

Santa ingenuidade! O apelo do futuro meliante me dobrou, e respondi claro, se é só isso, conte comigo. Dito e feito. Pouco tempo depois, Fulano trocou de emprego e nunca mais tive notícias – até que um dia, a visita do carteiro trouxe a surpresa e o baque: meu nome no Serasa. Como assim? Fui garimpar a resposta, que trouxe outra surpresa desagradável. O salafrário não pagará o empréstimo e a loja, prestativa e cruel, executará o avalista, eu mesmo, sem nem sequer tentar um único contato prévio para verificar se eu estaria disposto a bancar o débito.

Do Fulano, nenhuma notícia. Virou fumaça, uma página em branco. Só mais de dois anos depois um amigo comum revelou que ele morrera. Infarto letal. Não deixou herdeiros, contatos, nem um miserável bilhete. Restou apenas a amarga decepção de ter confiado em alguém por sua boa lábia e sorriso gentil. Quem mandou?

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.