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Eu e minha inveja

Como todo mundo, ouvi muito sobre inveja. Como todo mundo, penso que sei o que é inveja. Ou não? A verdade um tanto constrangedora …

Como todo mundo, ouvi muito sobre inveja. Como todo mundo, penso que sei o que é inveja. Ou não? A verdade um tanto constrangedora é que antes de começar a escrever esta nota parei para consultar o Houaiss. Está lá: sentimento que mistura ódio e desgosto pela felicidade ou prosperidade dos outros. Ou desejo irrefreável de possuir ou gozar, em caráter exclusivo, o que é possuído e gozado por outro.

Ódio? Esse troço é forte demais pra mim. Devo funcionar em 110, talvez menos. Ódio precisa de 220 pra cima. O mais perto de ódio que cheguei foi ao conhecer detalhes da tortura aplicada pelos milicos, nos tempos da “redentora”. Como dizia o Ernesto Sábato, as palavras começam sendo escritas em maiúsculas e acabam entre aspas. Enfim, a minha raiva se queima rápido e sobra uma espécie de surpresa — que até hoje não consegui contornar — pela estupidez ilimitada da manada de bípedes implumes, como definiu Aristóteles, acertando uma, pra variar.

Desejo irrefreável? Só me lembro de um, nos últimos tempos: ter entre as mãos o pescoço de um tal Michel Trololó, ou coisa parecida, que se esganiça cantando uma debilidade mental que precisou de umas cinco ou seis pessoas pra compor. Mas acho compreensível, tenho os ouvidos e o estômago sensíveis. De qualquer forma, se não ouço, não sinto nada.

Andei pensando em inveja porque me lembrei de uma coisa do Rubem Fonseca. Ele disse que, se invejava alguém, era o Isaac Babel. Fonseca adoraria ter escrito “A cavalaria vermelha”. Compreendo isso direitinho.

Aí fiquei matutando: que livros eu gostaria de ter escrito? Eu, um admirador de Borges e Cortázar, que me babo com tantos contos, com tantas páginas, daria um dedo pra ter escrito esses contos e essas páginas? Meio surpreso, descubro que não. Também descubro que não daria nada para ter escrito uma série de outros livros de autores que admiro, como Cervantes, Rabelais, Stendhal, Turgueniev, Tchecov, Italo Svevo e mais uns dez ou doze.

Mas. Mas como eu ficaria alegrinho se tivesse escrito “O coração das trevas”, do Conrad. Como eu ficaria alegrinho se tivesse escrito “A metamorfose” e “Na colônia penal” do Kafka. Por que exatamente, é difícil de explicar. Conrad, por exemplo, tem um defeito que detesto: com muita frequência se torna pomposo. Kafka não. Admiro a secura dele, ou mesmo a aspereza do estilo. Mas é isto: gosto, admiro, mas não os amo como a Borges e Cortázar.

Talvez bastasse engrossar o coro dos contentes: são três obras-primas. Claro, claro, mas por que diabos são obras-primas e, sendo, no que se distinguem de tantas outras obras-primas? Não me ocorre nada muito brilhante, só uns balbucios: em poucas linhas eles foram mais longe e mais fundo que outros que precisaram de quinhentas páginas. São histórias tão exemplares que parecem uma espécie de logotipo, me entendem?

Leio esses livros com fervor, com reverência. Em seguida, viro cada linha pelo avesso, pra ver como foram feitos. Nem me lembro do Conrad ou do Kafka. Ou, se me lembro, é pra pensar, como se sorrisse pra eles: seus filhos da puta, nem vocês sabem como fizeram.

Hiperrealismo

Vi na BBC uns desenhos de um escocês ou irlandês feitos a lápis. São tão perfeitos, que você jura que são fotografias. Mas e daí? A arte tem de revelar a natureza, não copiar. Acho que esse camarada sabe disso — afinal, em qualquer escolinha de arte isso é repetido e qualquer criança esperta não esquece. Talvez ele desenhe assim como reação à multidão de enganadores que estão aí, chamando qualquer borrão ou trapo pendurado no teto de arte.

Artes circenses

Li sobre um artista plástico indiano que pinta com a língua e outro, não sei de onde, que pinta com o próprio sangue. Hummmm. Outros devem ter pintado com o tico, certamente. Outros devem ter passado tinta no traseiro e rebolado sobre a tela. Outros — peraí. Melhor deixar pra lá. Em matéria de artes circenses, sou mais demonstrações de força capilar ou o domador botando a cabeça na boca do leão.

Autor

Ernani Ssó

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