A dor é uma experiência egoísta. Talvez a mais egoísta que exista. Principalmente a dor psíquica. Porque ninguém entra completamente nela. Ninguém vê exatamente o que você vê. Você pode explicar, desenhar metáforas, inventar nomes, transformar a angústia em linguagem, e ainda assim existirão furacões que não cabem em palavra nenhuma. Existem ventos internos que giram numa velocidade impossível de traduzir. E às vezes a sensação é justamente essa: o mundo inteiro aponta para uma parede azul enquanto você a vê roxa. Roxa de um jeito agressivo. Roxa até doer. E não importa quantas pessoas digam que ela continua azul, que logo você voltará a enxergá-la como antes. A dor não diminui só porque é incompreendida.
Falo disso a partir das experiências que conheço, estudo e atravesso. Ansiedade. TDAH. Mas até dentro dos mesmos nomes existem universos diferentes. Cada mente carrega sua própria gramática do caos. O que para alguém parece suportável, para outro pode ser devastador. E acho que uma das partes mais difíceis da saúde mental é justamente essa impossibilidade de transferência. A dor mental não é transmissível. Você nunca consegue entregar para alguém exatamente o peso do que está sentindo. Talvez aí nasça a beleza da arte. Porque embora ela não consiga reproduzir integralmente a dor, ela consegue encostar nela. Respirar perto da ferida. Fazer alguém perceber, mesmo que de longe, a dimensão daquilo que vive dentro de você.
Existe também um desejo profundamente humano de reconhecimento. Uma vontade quase infantil de que alguém olhe para você e diga: eu sei que foi difícil. Você quer que percebam o esforço absurdo que às vezes é simplesmente continuar funcionando. Quer ouvir que sobreviver também exige força. Que levantar da cama pode ter sido um ato heroico em dias específicos. Existe uma vontade silenciosa de receber uma medalha invisível por não ter desistido. E talvez isso não seja egoísmo. Talvez seja só exaustão querendo colo.
Porque a verdade, sem romantização nenhuma, é que algumas pessoas lutam contra os problemas comuns da vida e continuam lutando contra si mesmas. Contra a desregulação. Contra pensamentos acelerados. Contra medos irracionais. Contra uma mente que muitas vezes parece não conversar na mesma frequência do restante do mundo. Isso gera raiva. Gera cansaço. Gera invisibilidade. Mas eu confesso que prefiro transformar essa inconformidade em ferramenta. Transformar meu histórico em ponte. Se eu já estive em certos abismos, talvez consiga deixar uma lanterna acesa para alguém que esteja passando por eles agora.
E não é sobre ser melhor ou mais forte. É sobre reconhecer caminhos porque você já caminhou por eles antes. Existem dores que só entendemos verdadeiramente quando já moramos nelas. Ainda assim, acredito que tentar compreender o outro continua sendo um exercício digno. Incompleto, sempre. Mas digno. Entender alguém profundamente é como procurar a raiz de uma árvore antiga demais: você talvez nunca alcance o fim, mas isso não deveria impedir ninguém de continuar cavando. Nunca.
No fim, existe uma solidão inevitável em existir. Você percebe que ninguém poderá resolver completamente as coisas por você. Que ninguém conseguirá pensar por você. As pessoas apoiam, acolhem, amam, ficam ao lado. Mas a reconstrução sempre acontece com as próprias mãos. E talvez amadurecer seja justamente aprender que nossas fragilidades podem virar força dependendo da mesa em que são colocadas. Existem dores que afundam pessoas e existem dores que, depois de atravessadas, viram ferramenta para aliviar o peso do mundo de alguém.
Talvez seja isso que eu esteja tentando fazer. Transformar lutas em linguagem. Linguagem em acolhimento. Acolhimento em mudança. Mesmo que a mudança aconteça em apenas uma pessoa.
Com amor,
Luan

