Hoje eu pensei em escrever novamente sobre os dias e noites de inverno que engessam a minha mobilidade e a criatividade. Mas poderia correr o risco de perder alguns dos meus leitores pela repetição de temas. Talvez a coluna pudesse tratar dos altos e baixos do meu time, o Grêmio, e seus desempenhos instáveis. Mas poderia magoar meu ídolo intocável, Renato Portaluppi, o treinador atual do imortal tricolor. Quem sabe reclamar dos sapos que a gente precisa engolir na vida particular e profissional, nos dias úteis e nos feriados. Mas o texto poderia ficar dramático demais, cruel ao extremo, rancoroso e uma narrativa triste de ler.
Mas é urgente falar sobre dois seres humanos que têm iluminado a minha vida. E de um ser animal que é um remédio para o meu dia a dia e me alivia as dores do corpo e da alma. Na companhia dos três, compreendi que é possível reviver, renascer de cada adversidade, reanimar o tédio, encantar o sentimento mais nublado, enfeitar os dias sombrios e clarear as noites mais escuras e revoltosas. Nas atividades com qualquer um deles, sempre saio renovada e enriquecida. Com as emoções boas oxigenadas. E com os sentimentos ruins detonados. Pelo menos até a ocorrência de uma nova encrenca.
Com a Gabriela, minha única e idolatrada filha, aprendi quase tudo o que sei atualmente sobre viver, amar e respeitar. Foi com Gabriela que descobri, há quase 19 anos, a forma mais nobre e irretocável de amar, aquela que inclui a entrega diária e eterna, aquela que inclui a doação voluntária e incessante, aquela que começa a se formar com o cordão umbilical. Foi com a convivência com Gabriela que entendi melhor o significado de se respeitar o controverso, o diferente, tirar os rótulos e permitir novos olhares sobre o que se apresentava já moldado. É a cada novo dia, em que ouço a voz de Gabriela, aprendo e entendo como é surpreendente e necessário viver.
O outro ser humano que invadiu minha razão e emoção tem menos de três anos e me tornou, depois de 28 anos (idade do Rafinha, o meu afilhado mais velho e hoje já dono total de sua vida), a dinda mais boba e sem noção desta terra. Nos seus dois anos e oito meses, Lucas divide comigo as suas descobertas, narra histórias fantásticas com os seus bichinhos da fazenda como protagonistas, brinca de esconde-esconde e acha uma graça desmesurada de qualquer bobagem ou gesto que eu faço. Quando posso, nos finais de semana, a minha vida toma a estrada para Butiá, onde o afilhado Lucas demonstra que nunca é tarde para se exercer a ternura na sua total plenitude.
E com o Dalai, meu neto canino, todo o retornar do trabalho tem uma recepção que faz eu me sentir a pessoa mais especial e única do mundo. O peludo shih tzu fica enlouquecido quando eu chego, todo o dia, por volta das 19h, e já começa a se agitar quando aviso, lá do elevador, que “sim, a vovó está chegando”. Ao abrir a porta do apartamento, Dalai nem espera eu soltar bolsas, sacolas e outros acompanhamentos, e já pula nas minhas pernas e pede carinho. De imediato, sobe para um apoio de braço do sofá da sala e fica ali abanando o rabo e sacudindo o corpo todo. Numa excitação comovente. Não se afasta dali enquanto eu não faço os afagos que ele espera.
A simples presença destes três seres nas minhas rotinas é suficiente para ter certeza de que o presente deve ser vivido na totalidade, que os sentimentos não devem nunca ser guardados, que o amor é sempre o melhor alimento da vida.
A colunista Márcia Martins está em férias. Este texto foi originalmente publicado em 14/08/2013.
