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Evolução e involução no futebol do RS

Vem aí mais uma Copa do Mundo e as chamadas de TV apelam para lances e narrações de jogos da seleção brasileira no passado. Recordações do vibrante Geraldo José de Almeida, do eclético Luciano do Valle e do irreverente  Silvio Luiz, para citar alguns que deixaram legados, entre os narradores da era do futebol pela TV. 

Essas lembranças remetem ao meu começo no Jornalismo, nos idos de 1972, estreando justamente na chamada crônica esportiva, que  passava por uma  transição, abandonando aquela linguagem mais florida, baseada nos anglicismos importados da Inglaterra, onde nascera o futebol. As narrações e os textos ficaram mais limpos, menos alegóricos, mas ainda se ouvia e lia, aqui e ali, termos como peleja, contenda, cotejo, prélio e, claro, o britânico match, para designar o que hoje conhecemos como jogo ou, no máximo, partida. 

Todo este nariz de cera, que também já não se usa mais, para agradecer ao amigo e experiente jornalista Antonio Goulart , que  reavivou o saudosismo ao encaminhar quatro matérias que assinou na coluna Almanaque Gaúcho, de Zero Hora. Intitulados “Assim escrevia e falava nossa crônica esportiva”. os textos resgatam o linguajar dos jornais portoalegrenses dos anos 1950 ao tratar do futebol, aliás, do foot-ball ou soccer. Goulart pesquisou no acervo do Museu de Comunicação Hipólito da Costa e lá encontrou preciosidades como o tratamento de player ou crack para o jogador de antigamente, só “não era politicamente correto falar em atleta negro, mas sim colored. Se também tinha estatura elevada, recebia a pomposa designação de gigante de ébano”, descreve o pesquisador.

O goleiro era tratado por goalkeeper, guarda-valas, guarda-metas e arqueiro. O árbitro aparecia de forma respeitosa como Sua Senhoria, referee, mediador, condutor da peleja,,  os dirigentes podiam ser próceres ou paredros e os narradores de rádio os speakers, que descreviam driblings ou fintas e quando os ânimos esquentavam em campo falavam que os players “iam às vias de fato”. Os redatores escreviam que “a peleja foi arduamente disputada e os atletas empenharam-se vivamente pela vitória” e “perante regular púbico postado nas dependências do estádio”. 

O que faltava em objetividade sobrava em toques românticos, anota Goulart. Com  muitos estrangeirismos, acrescento eu. 

Os “apelidos” dos clubes eram um capítulo a parte,  levando em conta a cor das camisetas, o nome do estádio ou da cidade. Alguns exemplos: Tricolor/Mosqueteiro da Baixada (Grêmio), Diabos-Rubros dos Eucaliptos (Inter), Jalde-negro da Rainha da Fronteira (Bagé), Xavante da Princesa do Sul (Brasil), Vovô da Noiva do Mar (Rio Grande). 

Não tem relação de causa e efeito, mas é inevitável registrar que enquanto a linguagem das editorias de Esporte evolui no RS, no sentido contrário o futebol dos nossos clubes sofreu uma involução nos últimos anos. É o que tristemente se constata nas participações deles em todas as competições fora do circuito regional. Desse jeito, vai ser revivida aquela sentença  do técnico Galego, do tempo em que seu Pelotas era conhecido por Áureo-cerúleo da Princesa do Sul, segundo a qual a dupla Grenal tinha que valorizar o Campeonato Gaúcho, pois era a única competição que tinha condições de ganhar. Para usar uma expressão já incorporada ao linguajar da crônica esportiva, a régua está bem baixa para nossos clubes.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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