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Faltou tempo. Sobrou tempo.

Por todas as razões, vivemos um tempo único, peculiar. Um tempo em que os tempos para muitas coisas são espaçados e cheios de vazios, que podem servir para contemplação, reflexão, avaliação, introspecção.

Mas também podem servir para tempos de convívio, de interação (mesmo que virtual), de troca quando ocorre uma aflição comum, mundialmente comum. São tempos de uma certa forma revividos, meio que de cadeiras na calçada (virtuais, óbvio), de solidariedade(que tem rolado bastante).

Sim, se o medo é comum a todos, ele aproxima. Cria vínculos (que podem ou não se desfazer depois da crise do coronavírus) antes até mesmo improváveis. Doença de um lado democrática: apesar de os recursos para enfrentá-la (como poder fazer home office, estatística mostra que no Brasil mais de 50% das pessoas não podem, como ter acesso a uma rede hospitalar que não seja somente a pública, etc) serem bem distintos, ela pode atingir a qualquer pessoa. Depende de se cuidar mais ou não. E do estado de saúde, idade, etc.

Mas tem aí um outro lado, um paradoxo: se sobra tempo, falta tempo também. Com o home office, por exemplo, a demanda por reuniões virtuais ficou bem mais elevada, exigindo ginástica em termos de tempo e uma ótima organização, para não se perder. Isso sem falar na avalanche de lives e não enorme tentação de consumo de conteúdo disponível, exatamente pelo tempo disponível. Na verdade, FOMO, que é o medo de perder alguma live, conteúdos, tendência ou mesmo série ou livro que estejam sendo comentados. Este tempo estranhamente encolheu. Porque enquanto os trabalhos eram presenciais, restava pouco tempo para tudo isso.

A partir do momento em que ficou remoto, o acesso fica facilitado e só mesmo curadorias competentes e cabeça o mais no lugar possível para não se afogar em lives, conteúdo, etc, nem sempre úteis e necessários. 

Até porque surgiu um discurso urgente (não de todo errado, o errado é o tom de urgência tão grande) de que precisamos aproveitar esse “tempo” para nos prepararmos para o futuro logo aí. Se não o fizermos agora, estaremos diante de uma nova realidade. E teoricamente despreparados. 

Somando tudo isso, volto ao título: sobra tempo mas falta tempo. O que falta mesmo é a busca pela serenidade (não pela falta de ação e iniciativa, nada disso). A partir de uma cabeça mais centrada, o que eu sei que não é nada fácil nesse momento, é possível fazer uso e aproveitando do tempo. Não vai sobrar nem faltar tempo, teremos prioridades e raciocínio. Equilíbrio. Não estou dizendo que é fácil. Não. Mas é o que isso sim precisamos urgente buscar.

Autor

Flavio Paiva

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