Quando perguntaram a Norman Mailer se acreditava que nada pode destruir um bom escritor, como disse Faulkner, ele respondeu que Faulkner era talvez o maior escritor que mais besteira disse. Qualquer coisa pode destruir um escritor: sexo demais, bebida demais, dinheiro demais. Segundo um amigo meu, foi exatamente isso que destruiu Norman Mailer. Podia ter acrescentado que apenas a morte parou Faulkner, ou que os dois falavam pensando em si mesmos. Outra coisa: nenhum dos dois deu provas do que disse, apenas foram veementes. A veemência, por mais empolgante que seja, não basta, fora dos púlpitos e palanques políticos.
Talvez tenha sido bebida demais o problema do Mailer. Mas dinheiro demais? Acho que foi o contrário. Para pagar todas aquelas pensões alimentícias para as ex-mulheres, Mailer foi obrigado a rodar a bolsinha em alta velocidade. Rodar a bolsinha uma vez ou outra pode até ser uma experiência interessante que acabe dando um bom livro. Mas continuamente é um exercício capaz de abalar até os nervos do Charles Bronson.
Quanto a sexo demais, não sei, nunca consegui acreditar muito, ao menos entre os homens. Há um limite físico: a quantas orgias você consegue ir por semana? O que há, na maioria das vezes, é sexo de menos. Por falar nisso, sexo de menos não é muito mais destrutivo? Quanto menos sexo, mais se pensa no dito cujo, o que perturba a concentração de qualquer um. Bom não esquecer aquela confissão do Paulo Francis: na adolescência, Francis ia para bacanais na fazenda de um amigo e levava livros, porque, depois de transar com todas as garotas, batia o tédio, era hora de fazer outras coisas. Para isso, convenhamos, não precisa ser um bom escritor, basta o interesse pela literatura ser um pouco maior do que por uma sesta, ou uma conversa fiada. Agora, o fato de alguém preferir correr atrás de mulheres o tempo todo em vez de escrever não é prova de que o talento literário dele seja fraco. Pode ser apenas que a vontade de correr atrás de mulheres seja mais forte.
Segundo Faulkner, se um escritor não é de primeira classe, “ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica”. Aplicando a lógica deste pensamento, Mailer culpa a bebida, o sexo e o dinheiro para não admitir que o seu talento não era grande coisa. Encaixa direitinho, não? Mas será verdadeiro? Acho brabo reduzir as tendências autodestrutivas de Mailer a um único motivo. A desintegração da literatura de Mailer pode muito bem não ser causa, mas resultado. Seria necessário entrar em detalhes da vida do homem para se afirmar algo com um mínimo de certeza. Depois, tem o fato de que muitos escritores de segunda enfrentam com estoicismo a falta de tempo, de dinheiro e demais desgraças que afligem a categoria.
Acho incrível que tantas pessoas inteligentes como Faulkner confundam veemência com argumentos. “Nada pode prejudicar a literatura de um homem se ele for um escritor de primeira classe.” Por quê? É como eu disse: nada prejudicou a literatura de dezenas de autores de segunda, pra começo de conversa. Se Faulkner está certo, Dostoievski é de segunda: Humilhados e ofendidos, escrito como folhetim para tirar o jornal do irmão do poço, não é uma obra-prima; O jogador, escrito para pagar dívidas, idem. A segunda parte de Almas mortas é uma demonstração da falta de fôlego do Gogol. A literatura do Flaubert, pós Madame Bovary, teve o mesmo empenho, mas tem o mesmo peso? Embora, A educação sentimental… Não se poderia afirmar que muitos escritores são destruídos pelo seu primeiro livro?
“Se um homem não é um escritor de primeira classe, então não há nada que possa ajudá-lo muito, porque aí já vendeu sua alma por uma piscina.” Lógica exemplar: se não for de primeira, é um vendido. Me parece perfeitamente provável que o sujeito seja um escritor de segunda e seja um caráter de primeira. Ou, deixando de lado o caráter, o sujeito pode ser tão obsessivo como qualquer escritor de primeira e defender o pouco de talento que tocou a ele até a última frase. Depois, é bom insistir, um escritor de primeira continua sendo gente, quer dizer, está sujeito a desregular como todo mundo.
Toda a crença do Faulkner na força do talento está aqui: “A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem de se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver de roubar a sua mãe, não hesitará; a ‘Ode a uma urna grega’ vale mais do que qualquer punhado de velhas”.
Gosto da virulência com que isso é dito, mas será verdadeiro? Todos têm um sonho, os de primeira e os de segunda, os de terceira e os de quarta. Não dá para garantir que o sonho do de primeira não angustie menos que o sonho do de quarta. A arte de um escritor de quarta será também sua única responsabilidade? O que fazer com os de segunda, ou décima segunda, que se julgam de primeira? Ou que são desapiedados? “Ode a uma urna grega” pode valer mais do que um punhado de velhotas, mas, antes de escrevê-la, Keats poderia afirmar com toda a certeza que ela valia mais do que as velhotas? Para encerrarmos: o que faz a pessoa que, além de ser escritor, quer continuar sendo um ser humano?
“A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte.” Estranho que Faulkner tenha baixado as armas frente à morte. Podia continuar no embalo das suas próprias palavras e dizer que se o escritor for bom mesmo, depois de morto será psicografado pelos espíritas de plantão. Assim o círculo se fecharia perfeito.
Nada destrói, ou qualquer coisa destrói? Tanto Faulkner como Mailer me parecem delirantes. As afirmativas deles não levam em conta a trama inextricável de fortaleza e fragilidade, de motivos, de acasos, de desejos, de emoções contraditórias, que forma qualquer pessoa por mais simples que seja. Parece estranho que escritores do porte do Faulkner e do Mailer ignorem, ou minimizem isso. O que nos leva a uma nova pergunta, uma nova discussão: como é possível que romancistas de talento sejam capazes de pensar as asneiras mais grossas?

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