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Fazendo a cabeça

Estive na excelente palestra/bate-papo do escritor argentino Alan Pauls, realizada pela Feira do Livro de Porto Alegre, na semana passada. Ele falou sobre seu …

Estive na excelente palestra/bate-papo do escritor argentino Alan Pauls, realizada pela Feira do Livro de Porto Alegre, na semana passada. Ele falou sobre seu último livro, A História do Cabelo. Lá pelas tantas, disse que se quisermos ver as tendências de cortes de cabelo (principalmente para homens), não devemos mais ir às “peluquerias”, mas aos estádios de futebol.

Este comentário (que naturalmente não foi o mais importante da excelente palestra) me fez refletir e voltar a um tema que já abordei aqui. Os jogadores de futebol estão, cada vez mais, fazendo a cabeça das pessoas. Não apenas no aspecto estético. Suas atitudes repercutem em milhões, senão bilhões de pessoas ao redor do mundo. O aspecto estético é quase acessório, embora ele na realidade represente como as questões subjetivas de muitas pessoas acontecem: se imito alguém, o faço por duas possibilidades. Primeiro, por achar que aquela atitude, pensamento, modo ou estilo são invejáveis, interessantes e valem a pena ser repercutidos. Segundo, porque eu posso necessitar da imitação para conseguir algum significado em minha existência. Carente de personalidade, interesses, pensamento, preciso usar o outro (o famoso) para gerar significado para minha vida. E é aí que mora o perigo.

Porque a primeira alternativa de imitação citada acima está ok. Se formos ao âmbito do pensamento, da intelectualidade, na realidade eu não vou imitar alguém. Vou me abastecer daqueles pensamentos para gerar os meus próprios. Mas se pensarmos em moda e estilo, não há problema algum em adotar alguns objetos, acessórios ou estilo do meu ídolo. Porém, como tudo na vida, há limite. Se eu faço isto (entramos agora no segundo motivo da imitação) de forma quase inconsciente, automática e por não ter eu mesmo minhas reflexões, conclusões e pensamentos, corro o sério risco de despersonalização e de imitação de atitudes questionáveis.

Pessoalmente, acho o corte de cabelo chamado moicano, adotado por muitos jogadores, de um mau gosto incrível. Porém, fosse só isto e tudo bem. Eu teria apenas (como tenho) que ver os jogadores com este corte, bem como os meninos a imitá-los. O problema mesmo acontece quando os jovens (e muitos nem tão jovens assim) imitam atitudes equivocadas de seus ídolos. Tenho notado, de alguns (nem tão poucos) anos para cá, que os jogadores foram perdendo o respeito com os árbitros, por exemplo. Tomam uma atitude de desconsideração, ora reclamando acintosamente, ora peitando o juiz, ora fazendo gestos no mínimo questionáveis. Alguns leitores dirão que é reflexo da sociedade em que vivemos, que está deteriorada em suas estruturas.. E é verdade. A falta de respeito é presença diária na vida de todos. Entretanto, quando esta falta de respeito se amplifica, multiplicada por formadores de opinião, estamos gerando um efeito bola de neve, não de futebol. Assim como há aquela máxima de que gentileza gera gentileza, desrespeito pode gerar desrespeito. Há que ter cuidado pois, como disse Alan Pauls, quem quiser ver o que estará na cabeça de muitas pessoas, que vá a um estádio de futebol. A responsabilidade dos jogadores e de todos aqueles que estão ao seu redor (clubes, empresários, técnicos, etc) cresce de forma geométrica. Vamos cortar não os cabelos dos jogadores, mas as idéias malformadas, ruins ou deturpadas. Caso contrário, eles podem estar em breve coroando a cabeça de milhões de pessoas.

Autor

Flavio Paiva

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