A mídia tem coberto à exaustão a doença de Fidel Castro e a nomeação de Raúl Castro, seu irmão, como seu substituto. As reações entre 800 mil cubano-americanos foram diversas. Carnaval em Miami, cautela em Cuba, depoimentos de velhos e jovens que não querem mais voltar depois de uma vida estabelecida nos EUA. “Eu acho que valem as vozes de mudança”, disse o senador Nelson Martinez, da Florida, ao Financial Times no sábado. “Mas qualquer coisa além disto é prematuro”. As notícias foram em grande parte obscurecidas pelo conflito árabe-israelense e pela morosidade das autoridades cubanas em dar visto a jornalistas. Isto fez com que a cobertura caísse em nostalgia e especulações. E, de qualquer forma, correligionários, nesta quarta, dizem que Fidel passa “muito bem”, e, segundo o Financial Times, cuidará melhor de seus “herdeiros”.
Mas as melhores coberturas foram, sem dúvida, no aspecto econômico, do New York Times, e no político, do Le Monde. As informações sobre a saúde de Fidel são tão desencontradas como câncer irreversível até a pronta recuperação. De qualquer forma, o “líder máximo” parece ter preparado seus sucessores. Em comparação com o nível do início dos anos 90, Cuba tem exibido importante renovação. A permissão para abertura de pequenos negócios particulares certamente foi um impulsionador. Tais feiras foram incentivadas por Raúl Castro, segundo Philip Peters, um especialista em economia cubana no Institute Lexington, na Virgínia. “Cuba claramente superou a crise. Naquela época (fim da URSS), o problema era saber se a economia sobreviveria ou não”.
Outro aspecto importante é que Cuba está se tornando uma espécie de pequeno player internacional. Exporta níquel em altas recordes, e estabelece relações com China, Canadá e Espanha visando principalmente a equipamentos agrícolas. Um dos últimos países comunistas do mundo, o país está muito longe daquele que ficou destituído e abandonado pela sua antiga benfeitora, a URSS.
O PAPEL DE RAÚL
Fidel tem 79 anos e Raúl, 75. Há quanto tempo vem ele influenciando a política e a economia cubanas? Apesar de ser chefe do exército, dirige o setor de turismo da ilha, uma das primeiras experiências de Cuba com a permissão de bolsões de liberalização econômica. Se a esfera econômica for controlada por Raúl Castro, ele nos últimos anos tem dado sinais favoráveis a um tipo de reformas como as da China e Vietnã. O governo diz que o crescimento da ilha foi de 10% ano passado, embora a CIA estime em 8%.
Mas nenhum país tem sido mais importante para Cuba do que a Venezuela. Fornece 100 mil barris diários de petróleo por valor abaixo do preço de mercado. Não é por mero acaso que Hugo Chávez foi o primeiro dirigente estrangeiro, seguido de Hu Jintao, da China, a enviar seus votos de pronta recuperação. Naquele momento, primeiro de agosto, encontrava-se no Vietnã.
O HERDEIRO POLÍTICO
No plano interno, Fidel preparava sua sucessão proporcionando cada vez maior visibilidade ao irmão, como mostrava, a 2 de junho, um suplemento de 8 páginas no Granma, no aniversário de Raul A visita de Chávez ao Vietnã foi colocada logo abaixo do comunicado onde Fidel transferia os poderes para seu irmão, conta Le Monde.
No plano externo, os acontecimentos vêm se desenrolando como se Fidel Castro tivesse escolhido Hugo Chávez que, aos 52 anos de idade, poderia ser seu filho, como seu herdeiro político. Sob muitos aspectos, a “revolução bolivariana” substituiu a revolução cubana, anti-imperialista, anti-americanista.
O aumento dos preços do petróleo fez de Hugo Chávez, à frente da Venezuela, o quinto produtor mundial, como um homem muito poderoso. Após ter se tornado, por sua vez, um globe-trotter, o presidente da Venezuela assumiu a liderança da esquerda latino-americana. Mas, pergunta-se Le Monde, terá forças, como desde 1959, o velho guerreiro de enfrentar 10 presidentes americanos e seus embargos? Ou como lhe teria dito Fidel, segundo a AFP, “a revolução continuará”?

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