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Flor roxa

Eu devia ter dezesseis anos. Ao recordar, vem-me a imagem de um menino com não mais de dez ou doze, mas é ilusão. Uma …

Eu devia ter dezesseis anos. Ao recordar, vem-me a imagem de um menino com não mais de dez ou doze, mas é ilusão. Uma amiga me indicara a uma mulher preocupada em dar um reforço às aulas de português do filho que, ele, sim, devia ter uns dez ou doze. Eu já enganava nesta área desde aquela época. Cumprida a missão, recebi uma quantia da qual não recordo, mas que pareceu o bastante para quem sempre andava com os bolsos vazios. Talvez eu devesse ter saído dali direto para uma loja de roupas, ou empregado meus recém- adquiridos recursos em alguma diversão barata. Contrariando os impulsos naturais da idade, dirigi-me a uma floricultura.

Eu não sabia bem onde encontrar uma, tinha apenas referências. Caminhei a esmo por algum tempo, entrei em duas ou três, mas tinha muita gente e fiquei com vergonha, como se estivesse em uma sex shop ou coisa do gênero. Engraçado flor encabular. Engraçado hoje, não num tempo em que, pensando bem, tudo era capaz de me encabular. Por fim, encontrei um lugar vazio. Só uma vendedora, creio que não muito jovem. Sentia-me mais à vontade com pessoas mais velhas ou crianças. As da mesma idade me constrangiam. A mulher foi gentil, ajudou-me a escolher e me tratou como um homem qualquer. Dinheiro não tem idade, cor ou sotaque, mas eu ainda não sabia disso.

Feito o arranjo, anexei um cartão, a letra já feia piorada pelo tremor da mão, e mandei entregar na casa de uma colega de aula, cujo endereço fora muito batalhado. A apuração foi a seguinte: procurei na lista telefônica o sobrenome dela, que era bem raro. Havia dois ou três. Descobri que o pai era um pequeno empresário. Liguei em horário de almoço, quando supostamente o dono não estaria e, tentando fazer a voz juvenil parecer máscula, disse que precisava mandar algo para a casa dele e pedi que confirmassem o endereço. Não sei como, mas fui convicente. Também já fazia minhas apurações.

Neste ponto surge a pergunta: sendo ela colega de aula, não havia como obter esta informação com alguma amiga dela, por exemplo? Havia, mas eu jamais teria a coragem de falar sobre o assunto com qualquer pessoa. No fundo não tinha também esperança que ela me desse bola. A menina mais linda de toda a escola, e ainda hoje tenho certeza disso, iria querer o quê com um garoto CDF, sem grana e sem graça? Só queria que ela soubesse, acho. Ou então tinha mesmo esperança, quem sabe.

O ato insano provavelmente foi perpetrado numa sexta-feira de outono ou inverno, fazia um pouco de frio e aquele final de tarde estava escuro e nublado, creio que peguei até chuva na epopéia rumo à floricultura. Como vinha um final de semana pela frente, ficaria em tensa expectativa, um misto de orgulho e arrependimento mortal. Também sonharia um pouco, mas o medo predominaria até a segunda-feira.

Não sei dizer como estava o clima do planeta no início da semana, mas minha mente era habitada por nuvens negras. Podia prever o desfecho, como poderia fazê-lo se desafiasse os valentões da turma. De certa forma, era tudo a mesma coisa. Quem estava “por dentro” e quem não estava. Para piorar a situação, ela sentava na mesma fila que eu, separados por dois colegas e um corredor. Fiquei na minha, é claro, mas não pude deixar de perceber os sorrisinhos maliciosos das meninas que a orbitavam. Ela própria, creio, tentou disfarçar, mas não muito. Na inútil tentativa de encontrar o céu, eu despencara direto para o inferno.

Um dia ela falou comigo (ela falou comigo!). De forma polida, mas enérgica, agradeceu e pediu para eu nunca mais fazer aquilo. Nem comentou o conteúdo do cartão que, sem dúvida, fora carregado com a dramaticidade dos amores precoces. Baixei a cabeça e nada consegui dizer. Foi a última vez que ela me dirigiu sua linda voz. Dois ou três anos depois, encontrei uma de suas amigas. Ela comentou o assunto, embora eu preferisse esquecer. Disse que me achava um cara legal, e que se arrependia de ter participado da sessão de gargalhadas provocada pela chegada do entregador de flores. Eu nem sabia, mas elas tomavam um chá, várias delas, bem na hora em que chegou o maldito entregador. Ali deveria ter me convencido de que o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxa. Mas nunca consegui.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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