Com a primeira marchinha de Carnaval da história da Música Popular Brasileira, composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga, começo a escrever a coluna da semana que já está totalmente contagiada pelo clima da folia de Momo. Porque é pedindo que todos abram alas, que eu quero passar, porque eu sou da Lira, não posso negar, Rosa de Ouro é que vai ganhar, que homenageio canções de carnavais passados e relembro músicas que devem ter marcado os bailes de muitos foliões e muitas folionas (sim, foliona é o feminino da palavra folião, embora muitos utilizem o termo foliã, que não existe no português).
Pois, com certeza, muitos choram ao ver nas prateleiras das lojas as ofertas de confetes para vender. Eu, pelo menos, derramo algumas lágrimas ao recordar o Carnaval que passou, o confete grudado na fantasia ao retornar para casa depois do baile, em que pulei e rodei o salão com aquele pierrô que comigo brincou. Como dizia a marchinha: “confete, saudade do amor que se acabou”. E quantos e quantos amores não começaram no sábado de Carnaval e não duraram nem até o final da folia? E quantas vezes o tal folião que havia virado a cabeça de uma colombina, havaiana ou pirata só era reencontrado no Carnaval do próximo ano?
Porque era muito riso. Porque era muita alegria, mais de mil palhaços no salão, e Arlequim chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão. Quem, com mais de 40 anos, nunca cantou esta famosa marchinha de Carnaval nos bailes de salão, numa época em que a festa de Momo era um dos eventos mais importantes e lucrativos dos clubes? Confesso que por vários carnavais, cantei errada uma estrofe da tal marchinha, o que não prejudicou em nada o tamanho da alegria espalhada no salão. Mas enfim, como era bom ver outra vez, aquele pierrô, tava fazendo um ano, que no Carnaval passado havia me abraçado e me beijado.
E a canção emendava dizendo: “na mesma máscara negra que esconde o teu rosto, eu quero matar a saudade, vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval”. Porque para os que gostavam de Carnaval, eram quatro dias de muita folia, ou então de descanso ou período prolongado na praia para os que não eram adeptos da festa. Mas, aos que não são fãs do Carnaval, eu digo: “bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade, eu peço paz, saudade, mal de amor, saudade dor que dói demais, vem meu amor, bandeira branca eu peço paz”.
Não sei se os clubes ainda apostam alto nos bailes de Carnaval. Há muito tempo deixei de ser aquela foliona com disposição para rodar toda a noite fazendo a volta no salão. Há muito tempo sepultei a desafinação nas canções de Carnaval e apenas ouso cantá-las, vez ou outra, no chuveiro. Há muito tempo não encontro um pierrô apaixonado e capaz de chorar pela sua colombina. Há muito tempo não vejo movimentação de adolescentes se fardando com fantasias para pular nas festas de Carnaval.
Neste Carnaval de 2015, ficarei em Porto Alegre. Sem praia, sem serra, sem folia. Mas pretendo acompanhar e torcer muito pela Vai-Vai, escola de samba de São Paulo, que deve arrasar com o tema “Simplesmente Elis, a fábula de uma voz na transversal do tempo”. No Rio de Janeiro, sou fã incondicional da Mangueira, que este ano homenageia a mulher em seu samba enredo. E aqui em Porto Alegre vou acompanhar a escola da Zona Norte, Imperatriz Dona Leopoldina, que terá Cuba como tema. De resto, a minha folia será dedicada aos filmes, livros e músicas.
