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Fresta na janela virtual

Fiquei tão enojada e enfurecida com a foto da AP que Veja publicou em sua página 53 da edição de 17 de setembro, que …

Fiquei tão enojada e enfurecida com a foto da AP que Veja publicou em sua página 53 da edição de 17 de setembro, que adorei que um hacker tenha entrado no mail desta tal Sarah Palin, já entronizada como mulher mito dos republicanos nas atuais eleições. Jecona de cara fotogênica é o que acho dela. E que importa isso para o mundo? Mas eu estava falando da foto, esta que pode ser vista clicando aqui, exibindo madame agarrada nas aspas de um pobre alce morto, cheio de sangue, imagem grotesca, absurda, terrificante. Será montagem? Estarei eu e Veja sendo injustos com madame?

Pois aí abro o Le Monde virtual, nesta manhã ventosa mas luminosa de final de inverno e vejo a chamada: “Hackear a caixa de mail de Sara Palin é simples como um clique no Google”, estampada no blog @merica – a atualidade da web americana em campanha. O que diz o post: que uma “enquete minuciosa” do Threat Level permitiu que, 24 horas depois da piratagem contra o mail pessoal de dona Sarah, tudo fosse desvendado, do autor ao método. Para a equipe do @merica, está mais que provado que não é preciso ser especialista em informática para invadir a caixa de mail da governadora do Alaska. E o próprio invasor Rubico,  como bom hacker exibicionista, explicou como fez sua arte usando o site americano 4chan.org inspirado no japonês 2chan, um fórum muito freqüentado por grupos de hackers.

O mais impressionante é que Rubico diz que só precisou destrinchar a lista de perguntas de base da função “senha” para chegar em dona Sarah. Em minutos, o cara que não deve ter nada mais o que fazer, fuçando em Wikipedia e Google, pode testar todas as questões propostas e descobriu que a resposta para aquela pergunta cretina que se tem de responder quando a gente se cadastra era, no caso da redneck “Onde você conheceu seu marido?”  Com a resposta estampada em uma centena de endereços, e já dentro da caixa de mail de Sarah, Rubico diz que bisbilhotou as mensagens e que, não encontrando nada que incriminasse a autoridade, por puro tédio, com certeza, resolveu postar o login e a senha no 4cha.org, assim como o que pegou da tela.

Ainda hoje, eu havia recebido, por mail, a newsletter do Washington Post com um artigo de tecnologia sobre reclamação de especialistas americanos em relação ao programa de proteção do governo às invasões virtuais. Vejam só: eles, lá, pais de toda esta coisa chamada internet, estão sentindo o cutucão dos tais cyber-attacks que não poupam ninguém, nem os que estão no poder. O que sobra pra nós? Sim, estamos vulneráveis. Se, antes, nosso medo maior era que alguém abrisse uma cartinha selada no bico da chaleira, só de maldade, para saber de nossas intimidades, e depois voltasse a colar a aba e a  enviasse, agora não tem nem o que fazer. Apenas relaxar. E, claro, se revelar o menos possível na rede.

A fresta da janela, hoje, tem zoom e som acoplados. Não dá para ficar totalmente paranóico (um pouco, pode) com a troca de cartinhas virtuais. Mas é bom estar de olhos e ouvidos bem abertos para não fazer caras e bocas de surpresa depois. Outra solução é só escrever besteira nos mails. Ou mentiras cabeludas sobre gente importante. Ou conhecida. E ver se algum hacker se interessa em divulgar. Está chegando a um ponto que, se a gente nunca for hackeado, vai ser vítima de uma grande frustração existencial que nenhum psicanalista resolverá.

Autor

Maristela Bairros

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