Fui presenteado pelo pessoal da Tomo Editorial (parceira da Rabisco Editora) com um exemplar do livro Sr. Valery, de Gonçalo Tavares. A obra é divertida e intrigante. Em uma das passagens do livro, o Sr. Valery explica a razão de apesar de seu diminuto tamanho, ele dar muitos saltos: ele entende que é igual às outras pessoas (de altura, ao saltar), só que por menos tempo.
Na realidade, há intrínseca nesta busca pela altura do Sr. Valery uma metáfora das nossas vidas. Pretendemos a felicidade, damos saltos e esticamos o pescoço em busca dela. Apesar de a atingirmos muitas vezes na vida, sabemos que ela é fugaz.
E assim o é com tantas outras coisas. Estamos sempre saltando por aqui e ali, espichando o pescoço mais adiante para atingir um objetivo, seja ele a felicidade, a realização profissional, o sentimento (de nós para nós mesmos) de termos significado em um mundo de 7 bilhões de pessoas, não nos perdermos por entre uma gigantesca massa de pseudos Srs. Valeries.
E tal como procuramos fazer ao longo da vida, também o nosso herói lançou mão de recursos. Entendendo que os saltos eram muito efêmeros e frustrantes logo após o seu ápice, conseguiu um banquinho. Assim, poderia ficar no auge. Mas lá pelas tantas esbarra em outro obstáculo: apesar de ter atingido a altura desejada, não podia se mover. E não é o que nos acontece em tantos momentos? Estamos em uma situação desejada, favorável. Mas sentimo-nos como que presos, quase estagnados. E aí instala-se a angústia da mobilidade. Do evoluir, do infinito.
Saindo um pouco do Sr. Valery, alguns indivíduos (não poucos, infelizmente) inverteram a lógica da felicidade. É humano, é natural que a vida seja feita de momentos de felicidade. Raras são as pessoas que são felizes durante longos períodos de tempo (me refiro à felicidade plena). Então, a lógica foi invertida: se a felicidade é fugaz, vamos fazer da felicidade uma regra. E assim, dê-lhe posts nas redes sociais com sorrisos de orelha a orelha, dê-lhe Prozac e similares, dê-lhe uhuuus por aí. Óbvio que estas pessoas não estão felizes, muito pelo contrário. Porém, ao comportarem-se como se felizes estivessem, elas acham que podem ficar felizes. Não acontece. Pergunte ao Sr. Valery se ele se pensasse mais alto, mais alto seria.
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