Colunas

Fumacinha imprópria

Quando Bill Clinton entregou-se aos prazeres da carne com uma estagiária, qualificada como baranga por gente que já traçou coisa pior e sobreviveu, a …

Quando Bill Clinton entregou-se aos prazeres da carne com uma estagiária, qualificada como baranga por gente que já traçou coisa pior e sobreviveu, a mídia internacional deitou e rolou. Pesquisas realizadas na época constataram que a imprensa, como soe acontecer, estava muito mais alarmada que os eleitores. A cigarrilha do presidente Lula guarda semelhanças com o ato sexual de Clinton (até porque envolvia charutos). Lula fuma às escondidas e utiliza um coadjuvante em ação embaixo da mesa. Sorte dos empenhados subalternos que o chefe fica só nas inocentes tragadas. Ou será que fuma, mas não traga?

Duvido que Lula perdesse as eleições porque fuma. Prefiro acreditar que os brasileiros, depois dos Anos de Chumbo, do Sarney, do Collor e do Itamar, aprenderam, a partir de Fernando Henrique, que certos hábitos podem fazer monges, mas monges, imagino, não dão bons presidentes. E eleitores tradicionalmente petistas tendem a aceitar vícios alheios com, digamos, serenidade. Ao orientar o presidente a esconder a cigarrilha, Duda Mendonça tornou-o mais palatável em tempos politicamente corretos, mas o conduziu a vício de longe mais nocivo: a hipocrisia. Nos Estados Unidos, os promotores independentes — uma praga americana –usaram contra Clinton não o fato de ter praticado sexo oral no gabinete oval (o caso é cheio de simbolismos e de rimas, o que se pode fazer?), mas de ter mentido para a Nação ao negá-lo.

Clinton não seria um mau presidente por gostar de sexo, o contrário é que deveria preocupar. O governo Lula não será pior porque o presidente gosta de fumar. Quanto mais satisfeito ele estiver, melhor para o país. Se é mau exemplo para as novas gerações ter um presidente fumante, como devem pensar os guardiões da moral e dos bons costumes, pior é ter um presidente mentiroso. SIm, porque é disso que se trata. Como no caso do filho escondido de FH. Hipocrisia não rima, necessariamente, com ideologia. O caso de Clinton é diferente não só porque lá não foi ele quem tragou, mas também porque se tratava de uma tremenda quebra de decoro. Tivesse Clinton pulado a cerca em outro lugar, a repercussão seria menor. O problema — numa visão romântica do poder — foi ter profanado o templo das decisões mundiais.

Fumar escondido é coisa de criança, é ridículo, é patético, e não passaria disso fosse o protagonista um cidadão comum. Sendo ele o presidente da República provoca impacto pelo eventual indicativo de como determinadas questões podem ser conduzidas em gabinetes palacianos. Como diria o ex-ministro Riccúpero, “o que é ruim a gente esconde”.

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É editor da revista Forbes, integra a equipe da ConsulteCom e escreve semanalmente neste site.

[email protected]

Autor

Eliziario Goulart Rocha

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.