Mesmo quando tentamos ser objetivos, deixamos rastros inconscientes em cada palavra. Um bom leitor se dá conta disso. No fundo, é aquilo de que o estilo é o homem ou de que o peixe morre pela boca, desde que não seja pescado com rede. Vejamos como exemplo um parágrafo de uma crônica do David Coimbra.
“George Clooney (…) é solteiro por opção. Não que seja difícil casar. Olhe em volta. Os seres humanos menos ‘desejáveis’ estão casados. O zelador do seu prédio que anda sempre de regata é casado, os azuizinhos multadores são casados, os especialistas em endomarketing são casados, os donos de pitbulls são casados.”
Por que Coimbra bota a palavra desejáveis entre aspas? Em geral se usam aspas pra desmentir o sentido literal, tipo uma piscada durante uma conversa. Isso faz sentido aqui? Penso que Coimbra sentiu que estava fazendo uma simplificação grosseira e usou as aspas pra amenizar sua opinião. Penso também que seria mais claro Coimbra dizer que muitas pessoas, com quem ele não se casaria nem amarrado, são casadas.
O zelador é menos desejável porque é zelador ou porque não anda de terno, ou com uma camisa Lacoste, ou sei lá o quê? Fiquei confuso. Se a regata é a medida, poderíamos nos perguntar como houve tantos casamentos no tempo em que se usava chapéu coco ou calça boca-de-sino, modas que hoje parecem de um ridículo sem remissão. Essa mesma regata que parece repugnante ao nosso cronista pode ser a faísca fatal do desejo de muitas mulheres. Sem esquecermos que os motivos que levam as pessoas a se casar são um pouco mais complicadinhos do que querer ter filhos, como Coimbra afirma mais adiante.
Mas meu exemplo preferido são os azuizinhos multadores. David Coimbra faz parte da galera que acredita na indústria da multa ou está fazendo uma onda pra ela (talvez pense em se candidatar a vereador). Porque é evidente: os motoristas infratores, bêbados ou sóbrios, são em número muito maior que os azuizinhos. Apesar desses motoristas botarem em risco a própria vida e a vida dos outros todos os dias, grande parte deles são casados. Mais: devem ter filhos. Mais ainda: não se importam de botar em risco seus filhos nem que eles aprendam a se sentir acima das leis.
Cada vez que vejo o saldo de mortos dos fins de semana e de feriadões, penso que se multa muito pouco e que as multas são baratas demais. A única campanha de educação no trânsito que funciona de verdade é aquela que atinge o bolso. Veja a Alemanha, veja a Austrália: os motoristas de lá são de uma sensatez exemplar. É mais sensato não pagar multas pesadas. Exageros de primeiro mundo, suponho.
Conheço vários motoristas que se queixam de terem sido multados indevidamente. Não duvido deles. Pelo menos não de todos. Mas trata-se de um argumento capenga. Pra cada multa indevida, há centenas de multas que não foram cobradas. Isso não é apenas um erro. É um perigo.
“Taradinos”
Tomado por uma curiosidade mórbida, assisti Machete até o fim. Roberto Rodríguez é um menino de doze anos, mais ou menos, sonhando com mulheres gostosas e vinganças sangrentas. Impossível prever o que fará quando crescer.
Tarantino, depois de um belo filme, Cães de aluguel, e de um muito divertido, Pulp fiction, regrediu a essa adolescência de onde seu parceiro parece nunca ter saído. Sancho Pança dizia que quem vê cara, não vê coração. No caso do Tarantino, não: num relance se percebe que estamos diante de alguém pior que Nelsinho, o vampiro de Curitiba.
Fantasias
As crianças têm muitas fantasias sobre os escritores e os livros, quem são eles, como são escritos. A mais comum é que os escritores são muito velhinhos e moram no estrangeiro, ou estão todos mortos. Esses dias uma professora me contou uma história sensacional. O menino garantia que todos os escritores estão mortos há muito tempo. Então ela perguntou: “Como continuam saindo livros novos?”. Ele: “Ora, são só cópias”. Pensando bem, esse menino tem razão.

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