Meu vizinho, o jornalista Ayrton Centeno, me contou uma ótima do Faulkner. Depois de sua experiência como roteirista em Los Angeles, ele disse: “Hollywood é o cu do mundo. Só que de plástico”.
Trevisan: nocaute no primeiro round
Você viu algum escritor influenciado pelo Dalton Trevisan? Nem eu. Acho que é porque o pessoal não aguenta levar porrada. É como no boxe ou nas artes marciais mistas: o lutador tem de ter poder de encaixe. Sim, levar um direto no queixo ou um pontapé no plexo e continuar firme. O lutador que só encaixa palmadas de amor, bom, está no ringue errado. Vamos ver se me explico.
Escritor desgracido
O jeitão do Dalton — amanheci íntimo hoje — é tão dele que dá medo. Nem uma palavra como “desgracida” a gente pode usar sem ser acusado de imitador. É o diabo, eu sempre usei, mesmo antes de ter lido uma linha do Dalton, porque era uma palavra de uso comum na minha família. Mas. Uma vez me atrevi a escrevê-la num conto e o Paulo Hecker Filho sublinhou e anotou ao lado: “Isso é propriedade do Dalton”.
O gozado é que ninguém reclama de dezenas de analfabetos que dão uma de Guimarães Rosa. Pelo contrário, são festejados, até ganham um concurso depois do outro. É realmente gozado. Porque absorver os maneirismos do Rosa é a maior barbada. A quantidade dos “influenciados” pelo Rosa devia deixar a gente desconfiado.
Veja, absorver um jeito de construir a frase ou uma determinada linguagem é o que disse sobre os lutadores: encaixar palmadas de amor. Até eu consigo. Quero ver o carinha medir força com o que vem depois disso.
A peneirar, por exemplo
Dalton tem uma visão de peneira, uma peneira que brinca com a física: deixa passar muita coisa grande e retém os caquinhos do vidro moído no caldo de feijão. Mais, entre os milhares de caquinhos possíveis, ele separa os que interessam, quer dizer, aqueles que ilustrarão a ausência do resto. É preciso treinar muito o pulso no balanço da peneira. Também precisa ter vivido um pouquinho, não? Nem falo em talento porque sem ele não tínhamos nem começado este papo.
A ouvir
Dalton pega a fala coloquial e a torna literária. Ele pega a escrita literária e tira a pompa e a circunstância. Até os lugares-comuns, com um toque de mão, brilham como novinhos em folha. Você acha isso fácil? Fácil é travestir substantivo de verbo.
A montar
Dalton é cineminha puro. Não só seus contos são muito visuais. Veja cada frase. Não nota o montador com a tesoura? Pra isso, não basta saber ver, é preciso sentir o ritmo das coisas na ponta dos dedos.
Sempre fico pensando: será que o Dalton leu muito o Stevenson?
A falar
Dalton é craque num terreno em que os brasileiros apanham feio: escrever diálogos com naturalidade. Poucos escritores descem do palanque ou saem da página do editorial. Escrevem tudo tão organizadinho que parece modelo de redação pro vestibular.
A silenciar
Dalton chegou àquele estágio superior da literatura: saber o que calar é mais importante do que saber o que se vai dizer. Implícito nisso, a insinuação venenosa. Vide item peneirar.
A não usar lápis de cor
Alguém, uma vez, disse a Philip Marlowe que ele era duro. O detetive respondeu: “Não sou duro. Sou apenas viril”. Isso cola com o Dalton? Dalton jamais dá mole pro sentimentalismo, segundo muitos o maior fator de sucesso de qualquer livro. Até o acusam de cruel. Gozado, chamam ele de vampiro. Mas é ele que nos mostra o espelho que reflete as imagens que ninguém quer ver de si mesmo. A ferocidade do humor do Dalton é a ira do Deus do Velho Testamento com os sinais invertidos.
Além da frase
Certo, saber escrever uma frase com sentido e alguma graça é importante. Mas, se você não manja de gente, pra que serve? Mesmo quando Dalton escreve sobre uma pedra, ele não escreve sobre uma pedra.
Volta ao ringue
Entendeu por que é mais fácil trocar palmadas de amor do que partir pro pau puro? Então vá pedir autógrafo pros Paul Auster da vida, seu frouxo.
Futuro
Seguido leio que alguém tinha ou tem um futuro brilhante pela frente. Não li nenhuma vez que alguém tivesse um futuro brilhante pra trás. Que coisa, não?

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