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Incentivo à leitura sem livro

Tem cerveja sem álcool, não tem? Tem café sem cafeína, não tem? Pois então, tem incentivo à leitura sem livro. A besta do Ernani …

Tem cerveja sem álcool, não tem? Tem café sem cafeína, não tem? Pois então, tem incentivo à leitura sem livro.

A besta do Ernani Ssó

Às vezes me convidam pra falar sobre incentivo à leitura em escolas, bibliotecas e feiras do livro. Eu, besta que sou, aceito. Os organizadores, menos bestas, logo se dão conta do erro e me riscam do caderninho deles. Sabe o que acontece? Eles esperam uma palestra tipo autoajuda. Eu não tenho uma receita infalível pra fazer ninguém gostar de ler e ainda tenho a mania de acreditar que discutir é uma coisa boa, fundamental até. O público se divide em três grupos: um grande e apático, que boceja e olha o relógio; outro, bem menor, que anota freneticamente o que digo (torço para que em seguida jogue fora até a caneta); e o último, pequetitinho, que se diverte com minhas ironias. No fundo, acho que faço tudo o que posso pelo incentivo à leitura: tentar escrever do modo menos chato possível.

No ventre da baleia

As feiras do livro se parecem muito. Tudo funciona com perfeição: apresentação de saltimbancos, contação de histórias idiotas por gente que se parece com esses locutores anfetaminados de FM, apresentação de danças com meninas imitando dançarinas seminuas da tevê, venda de artesanato, venda de livros espíritas, livros de autoajuda e pacotes Disney ou similares (livros de quatro páginas com muita figurinha e poucas letrinhas). O que mais se vê são escolares pobres passeando entre as bancas, loucos pra ir tomar um refrigerante. Se essas crianças por acaso descobrem que você é escritor, arrumam um pedaço de papel pra você assinar. Na falta de papel, a camiseta serve, ou a mão.

Luz no fim do túnel

Mas, entre tantos equívocos, às vezes a prefeitura tinha uma verba, mixuruca, mas verba, que foi empregada na compra de alguns livros pras bibliotecas de algumas escolas. Mais: algumas professoras leram esses livros com seus alunos. Mais ainda: essas professoras levam os alunos lá na feira pra falar com o autor, pra perguntar coisas ou apenas pra se conhecerem, porque se divertiram lendo. Eu sempre vou por causa dessas crianças e dessas professoras. Nem discuto o valor do cachê.

Gabriel, o Pensador

Há anos li uma entrevista desse tal Gabriel, o Pensador. Ele dizia que não lia livros. Acho ótimo isso: o cara não lê, mas escreve, é patrono de uma feira do livro e ainda ganha 170 mil. Logo estará na Academia. Acho ótimo porque isso mostra, em tamanho família, os defeitos dessas feiras, que apostam em tudo, menos no que devia.

Cobrança de dívida

Falando em grana, tem prefeituras que ainda não me pagaram trabalhos do ano passado, mas não chega nem perto de 170 mil. Será que não têm o dinheiro? Não, não. É que escritor não merece respeito. Nem escritor, nem livro, nem educação. Só merece respeito se aparecer na tevê.

Não seja chato

Acho ótimo que uma prefeitura como a de Bento Gonçalves tenha caixa pra poder pagar o cachê do Gabriel — vamos deixar o pensador de lado, já que não se pode levar a sério uma pessoa que inclua essa palavrinha no próprio nome. O que me deixa apreensivo é que essa feira, muito provavelmente, segue o modelito de quase todas: apenas a agitação conta, apenas o número de visitantes. O livro, a leitura? Não seja chato, isso não é coisa pra se tratar numa feira do livro.

Autor

Ernani Ssó

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