Arnaldo Jabor: “Picasso era um rude espanhol, um torcedor de futebol, um comedor de mulheres, um sacana aficionado por touradas e que não queria humilhar ninguém”. É mesmo? Vejamos.
Modigliani, pobre, doente, enfim consegue fazer sua primeira exposição. Em seguida aparece a polícia pra obrigar a dona da galeria a tirar os nus da vitrine. No meio da confusão, chega Picasso. Antes de olhar os quadros, diz a Modigliani, com a cara totalmente inexpressiva, algo do tipo: “Sabe aquele quadro que tua mulher me deu? Uma madrugada dessas tive vontade de pintar e não havia nenhuma tela em casa. Então pintei sobre tua pintura. Me perdoa?” Modigliani não diz nada e vai embora. Jean Cocteau assiste a tudo, bem nervosinho, mas nem pensa em dar uma porrada na fuça do Picasso.
Sabe por que “Guernica” é bom? Picasso entendia de crueldade.
Memória da pedra
A Companhia das Letras lança o romance do diplomata Maurício Lyrio com foguetes e rufar de tambores. Fui conferir. Eis a frase de abertura: “Não, o professor pensou, com as sobrancelhas franzidas, sempre altas na testa, como se quisessem distância do par de olhos tristes”.
Paul Valéry dizia não ter peito de escrever uma banalidade como “A marquesa saiu às cinco horas”. Teria, se ela saísse com as sobrancelhas franzidas? A frase seria perfeita se a condessa saísse com o sobrolho franzido.
Como em geral as pessoas têm apenas um par de olhos, me parece mais sensato a gente notar se tiverem, vá saber como, dois ou três ou quatro, mesmo assim se isso for fundamental dentro da história. Se as sobrancelhas querem distância “do par de olhos tristes”, o leitor pode pensar que o professor tem outros pares — ou trios, ou quartetos — de olhos alegres ou furiosos ou com a famosa expressão de vaca morrendo atolada.
O livro pode até ser bom, mas, pensei, se o Lyrio se deixa levar pelos cacoetes narrativos assim de saída, recolho meu apito e meu tambor. Em geral os cacoetes narrativos andam de mãos dadas com os cacoetes das ideias e das emoções. Pra não me sentir injusto, continuei por mais umas cinco ou seis páginas, depois li alguns trechos ao acaso. Nada mudou meu desamor à primeira vista.
Como dizia o Borges, nem todo livro foi escrito pra nós. Depois de cinquenta anos como leitor, descubro, com melancolia, que o número dos livros escrito pra mim diminuiu assustadoramente.
A carne é fraca
Falei em cacoetes de ideias e de emoções. Eis uma frase do Memória da pedra: “Readquiria a certeza de que o contato do corpo era o vínculo mais forte entre duas pessoas”. Sei não, o cara precisa nunca ter chegado perto de uma pessoa pra dizer um troço desses.
Ainda a pedra no caminho
Depois de ler algumas páginas de Maurício Lyrio, não me saiu da cabeça uma frase do Cortázar, em Rayela. Por favor, me acompanhem: “Agora só podia escrever laboriosamente, examinando a cada passo o possível contrário, a falácia escondida, suspeitando que toda ideia clara era sempre erro ou verdade pela metade, desconfiando das palavras que tendiam a se organizar eufônica, ritmicamente, com o ronronar feliz que hipnotiza o leitor depois de ter feito sua primeira vítima no próprio escritor”.
Os amigos do Kafka
Conheço gente que nunca leu Kafka porque o considera difícil. Mas Kafka pode ser lido em tantos níveis que o leitor mais mediano sempre lucra com alguma coisa. Difíceis mesmo são os críticos do Kafka. Eu, pelo menos, depois de ler alguns ensaios, saí boiando sobre Kafka, embora tenha saído muito entendido nesses críticos. A complexidade do Kafka é como a dos sonhos ou dos mitos: ele não nos dá um discurso, nos dá imagens. Sabe-se, cada um faz o que bem entende com as imagens, começando por ver antes nossa sombra projetada sobre elas.
Conheço gente que diz que Kafka é muito angustiante. Aquelas coisas, ser processado por um crime que se ignora, jamais alcançar o castelo em que foi contratado, acordar transformado num inseto monstruoso, ser morto por uma máquina que escreve a sentença em nossas costas. Não concordo. Ou concordo mas não vejo problema algum. Kafka é divertido. Ele tem o humor, o prazer e distanciamento, digamos, das fábulas, dos contos de fadas. Quer coisa mais violenta do que condenar a rainha a dançar com sapatos de ferro até a morte? Mas, no contexto, é divertido, é uma vingança perfeita. Qualquer criancinha compreende, pra espanto dos pais que em geral não compreenderam nada.
Talvez pelas fotos que ficaram do Kafka, temos a impressão de uma tristeza enorme. Só de olhar aquele olhar ficamos com medo do que o homem possa ter escrito. Aí nos contam a história famosa de que Kafka tinha muitos amigos e vivia de papo pelos cafés. Mais, quando lia seus contos ou capítulos de romances pros amigos, todos se mijavam rindo. Isso prova que esses amigos compreendiam Kafka melhor que a maioria dos críticos. Um homem com esses amigos desmente um pouco as fotos que nos afligem, confere?

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