Enfim, um pouco de sinceridade no trato com o leitor. O episódio protagonizado por A Gazeta, do Espírito Santo, que mandou o leitor se fuder, é apenas uma explicitação do desejo de muitos integrantes das redações. Para quem não conhece o fato: em 10 de setembro, o jornal usou para ilustrar uma entrevista com um exilado e escritor chinês uma foto do próprio e caracteres no idioma dele, destinados a arejar a página e fazer uma graça. Como os leitores capixabas fluentes em chinês não devem lotar uma kombi, seria apenas um recurso antigo, não tivessem alguns mais atentos virado a página de lado. Os escritos estavam no mais claro português: “Vá se fuder”. Quando li a respeito, em artigo escrito por Sandro Fuzatto, cheguei a imaginar estar diante de um primeiro de abril temporão.
O pior é que era verdade.
O jornal jura que foi um inocente engano. A criativa equipe teria pesquisado na Internet algo escrito em chinês e ninguém se preocupara em conferir o significado. Como não acredito na inocência – embora acredite na burrice capaz de gerar um “engano” de tal porte –, fico a imaginar a cara de satisfação do dever cumprido de algum membro do baixo clero que sempre quis descarregar em alguém as broncas com a chefia, o salário miserável ou a inveja de colegas mais bem-sucedidos.
Somente nos últimos anos os veículos parecem ter desconfiado de que sua existência implica a existência de um público. Como criança que descobre tardiamente o prazer de um bom brinquedo, começaram a invocar seu santo nome em vão e a todo instante.
Multiplicaram-se os “espaço do leitor”, “fórum do leitor”, “dica do leitor” e por aí vai. Não deveria ser óbvio que os jornais são feitos para os leitores? Tudo em um veículo tem de ser feito pensando no público. Muitos incorrem num exagero que pressupõe culpa. É como o marido infiel fazendo juras de amor à esposa diante de qualquer platéia, ainda que o sogro esteja bêbado e a sogra cochilando.
Respeito pelo leitor não se mede pelo número de seções com seu nome no alto, mas por cuidados éticos, veracidade, isenção, texto bem escrito, página bem ilustrada, manchete que valoriza o que de fato é mais importante. Por este critério, muitos veículos passam o tempo todo, de maneira indireta, mandando o leitor fazer aquilo que o pessoal da Gazeta mandou de forma direta. Ao menos este mérito o jornal teve: foi sincero.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial