Quando o sujeito nasce virado para a lua, dizia minha avó –- na verdade não dá para reproduzir aqui a frase completa de vovó –, não importa o que faça, tudo dará certo, a sorte sempre lhe sorrirá. José Serra parece ser um caso típico de viração pra lua. Tem tanta sorte que, mesmo sendo considerado antipático pela maioria do povo brasileiro, teve a simpatia do presidente Fernando Henrique Cardoso na hora de escolher o candidato do PSDB à presidência da República.
Tem tanta sorte o José Serra que, apesar de as investigações sobre desvio de dinheiro da Sudam e de supostas irregularidades envolvendo a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, terem se iniciado há alguns anos, o caso foi reativado três dias depois de uma pesquisa eleitoral mostrar Roseana tecnicamente empatada com Luiz Inácio Lula da Silva na primeira posição e ele, Serra, lá embaixo, bem distante dos líderes. Teve direito a escândalo e tudo por conta da invasão do escritório do marido e assessor da governadora, Jorge Murad.
A sorte de José Serra é incrível. Depois de tantos anos agindo em parceria com o PT, de repente o Movimento dos Sem-terra resolve fazer carreira-solo, invade a fazenda do Presidente, numa demonstração típica de quebra de autoridade e de bagunça pura, e provoca a desaprovação de boa parte da população, causando a Lula um desgaste com o qual não contava num momento em que era mais líder do que nunca. Para dar uma forcinha à já imensa sorte de Serra, Lula ainda prega aliança com o PL e vai jantar com o Orestes Quércia.
José Serra tem mesmo muita sorte. O Tribunal de Contas da União intensificou subitamente as investigações de eventuais irregularidades envolvendo Garotinho, justamente quando o governador do Rio ganhava projeção nas pesquisas e estava à frente dele, Serra. Mas a sorte de José Serra é tamanha que a violência no Rio voltou a dominar tanto o horário nobre que às vezes chega-se a imaginar que a situação em São Paulo, que pensávamos ser muito pior, deve estar sob controle. Aliás, muita sorte a dele, que entre tantos candidatos à presidência é o único no qual a TV não encontra defeitos e até já esqueceu o caso da arapongagem privada no Ministério da Saúde.
É verdade que José Serra conseguiu alguns avanços à frente do Ministério, como a disseminação do uso dos genéricos, a quebra de patentes dos medicamentos contra a Aids ou o combate ao tabagismo (estranho a indústria de bebidas nem ser incomodada se os alcoólatras, ao contrário dos fumantes, são responsáveis por tantas mortes no trânsito, casos de violência familiar, assassinatos, estupros etc., mas claro, deve haver uma lógica qualquer). Mas, por ter muita sorte o José Serra, a mídia não lembra de cobrar dele o fato de que suas medidas são todas boas de manchete, enquanto os desafortunados dependentes do SUS continuam morrendo na fila sem atendimento médico. Sorte é pra quem tem.
Dedicado a Aldir Chagas

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