Uma coisa puxa a outra e vice-versa. E em se tratando de memórias, este moto contínuo tem uma sistemática e uma solucionática muito próprias. A gente nem espera que vá pensar em alguma coisa e, pimba, já tá pensando. Por isso acho que jamais conseguirei fazer meditação – limpar totalmente a minha cachola é algo impossível. Já digo por quê.
Tenho, em todas as peças da casa, mas em todas mesmo, revistas semanais, mensais, da farmácia, da loja de sapatos, do grande magazine. Sem falar nos panfletos que vou pegando nas sinaleiras, no caixa do supermercado, na caixa de correspondência coletiva do edifício.
Ler pra mim é mais importante que escrever. E ler no banheiro, mesmo que meia página, se tornou natural na minha vida. Sem falar na indispensável leitura antes de dormir que, muitas vezes, me tira o sono, por razões várias, desde um susto, uma raiva ou puro deleite, neste caso incluo o copião do livro da Luciana Tomasi, Três Cidades Perto do Céu – Srinagar, Rishikesh, Katmandu, que li num sopetão, da meia-noite às quatro e meia da madruga e, evidente, não teve chá quente que me botasse pra dormir!
Mas estava eu lendo uma notícia numa das revistas semanais de informação que recebo e, não mais que de repente, assim do nada mesmo, lembrei dos meus tempos de redatora de notícias, na rádio Gaúcha, onde o Luiz Figueredo me acolheu, me ensinou o trabalho e se tornou meu tipo inesquecível pro resto da eternidade. E fiquei recordando detalhes daquela época, como o jeito que ele exigia fossem feitas as notas que, ai de nós, não estivessem sem uma única rasura, pois o locutor podia ter um piti e rasgar sem ler a informação.
Se usava um papel tipo meia folha A4, em papel jornal, acho que aparas das rotativas. E ali, naquele espacinho, se resumiam acontecimentos diversos, alguns frios, como dados da economia, da bolsa de valores, da inflação; outros, comoventes como mortes de alguém importante, acidentes pavorosos, conquistas fantásticas do homem, descobertas da saúde. Tudo tinha de caber em determinado número de toques, na máquina de escrever. Computador? Eram os anos 70 do século passado!!!!!
Quantos toques eram, não sei mais. Algo em torno de 60, acho eu, para cada linha. E o Gordo Fig era exigente: concordância impecável, clareza, porque – explicava ele – o ouvinte só tinha uma chance de entender a notícia, não era como o jornal, que o cara volta e lê de novo quantas vezes quiser. E mais: não se repetiam notícias como hoje, em que se alguém perder o noticiário das 7 da manhã na televisão, pode ficar sereno que vai ver a mesma coisa na mesma emissora, sem edição diferente, até o dia seguinte e, em outros canais, variando muito pouco o jeito de contar.
Depois de aquela pilha de folhinhas prontas, o Fig ia separando as mais importantes e montando o noticiário de cada meia hora, com a última notícia no lugar mais destacado: a última, para ser narrada pelo locutor com entonação de filme de Hitchcock. Quando as notícias soltas, que o locutor ia lendo e colocando de lado, em cima da mesa, voltavam pra nós, era grampear e colocar num escaninho, para o arquivo. Nunca soube se estes arquivos eram depois descartados, nem quando.
Na minha cabeça, eles continuam ativos. E ainda vejo o Fig em sua mesa, absorto, separando as notícias, dando um que outro esporro quando via alguma coisa ruim, tirando sarro dos locutores, zoando com os repórteres, caminhando lentamente, pesadão, por aquele corredor grande da rádio, levando na mão uma fita de rolo para ser editada com gilete e durex.
Saudades destes tempos. Saudades do Fig. Saudades de mim.
