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Leitura com cilício

Contaminado pelo clima da Feira do Livro de Porto Alegre, dei uma de idiota: em vez de seguir lendo a ótima biografia da Clarice …

Contaminado pelo clima da Feira do Livro de Porto Alegre, dei uma de idiota: em vez de seguir lendo a ótima biografia da Clarice Lispector feita pelo Benjamin Moser, passei um pedaço de uma tarde divagando sobre leitura e escrita. Não aprendo mesmo. Azar de quem me lê. Abaixo, um pouco da neblina que me turvava a cabeça.

Bernard de Fallois escreveu talvez o ensaio mais importante até agora sobre George Simenon. O cerne de sua argumentação é: um bom escritor tem mérito não apesar do prazer que proporciona, mas por causa dele. Agora, sei que há quem argumente que existe muito bom escritor que não dá prazer nenhum. Seriam bons apenas porque são profundos. Eu não sei. Nunca li um desses.

É simples: eu não leio um autor apenas pelo conhecimento. Como o conhecimento dado através de uma ficção é mais ou menos o mesmo em todos os grandes autores, prefiro buscá-lo nos que não me enchem o saco. Há ainda outra coisa muito, mas muito importante: a forma como se aprende, grata ou ingrata, faz parte do aprendizado. Isto é, aprender na base da palmatória é aprender a violência também, talvez mais a violência que o resto. Eu fora. Depois, há livros demais e tempo de menos. Não vou gastar meus dias com quem só me dá sono. Total, nunca sofri de insônia.

Repito sempre: de um conto ou romance ou filme, eu não espero um conteúdo. Eu espero uma experiência. Preciso explicar? Julio Cortázar tem um conto chamado “No se culpe a nadie”, no volume Final de juego. É sobre um cara que bota um blusão. Só isso. Só isso? É uma agonia tenebrosa. O que quer dizer? Difícil responder, o conto não é sobre um medo irracional, é a recriação desse medo, o que nos faz participar ativamente dela, a sofrer como se fôssemos o personagem. Italo Calvino disse que se sentiu surrado na leitura desse conto. Isso, me parece, é mais interessante do que a resposta que o vestibulando pode decorar pra marcar um xis na prova.

Sempre me preocupou o fato de o prazer ser suspeito pra muita gente. Sei lá, talvez haja aí um ranço católico. Aquele negócio: se deu prazer, é sexo. Se é sexo, cuidado que as portas do céu se fecham, está na Bíblia, nas primeiras páginas, que é pro neguinho não ter dúvida. Pra combater a tendência de o corpo ter e proporcionar prazer, use cilício. Se não funciona, pelo menos o freguês dá uma satisfação a sua culpa. Não parece lógico então que, se uma mente pode ter e causar prazer, você deve tomar cuidado, porque na certa é mais uma armadilha do diabo?

Sei que, caricaturado assim, parece grotesco. Na realidade as coisas são mais difusas. Mas não menos nefastas. Veja: a gente lê, estuda, investiga porque tem curiosidade, somos os espiões de Deus, patati, patatá. Se, voluntariamente, se transformam num sofrimento os meios que essa curiosidade é exercida, o que se está propondo? A vida já bombardeia nossa curiosidade com dificuldades demais.

No caso da leitura, vi e vejo muito a recomendação do uso de cilício por pais, professores e críticos. Não o uso do cilício após uma leitura prazerosa. Não. Mas durante a leitura, já que essa leitura deve ser o próprio cilício. Ou, como diz o ditado espanhol, se aprende com sangue. Ditado nascido de uma mente de milico ou de padreco, na certa.

Pra muito boçal inseguro, se um livro é divertido, não pode ser sério nem importante. Daí a se confundir a chatice, o palavrório obscuro ou pomposo, o tom professoral e solene com seriedade e profundidade é um passo. Lembre do Borges, que disse que seus primeiros livros eram intrincados simplesmente porque ele tentava disfarçar do leitor a total banalidade do que estava dizendo.

O pior é que muitos escritores fazem de tudo pra que seus textos sejam esse cilício. Fazem às vezes sem se dar conta. Em nome do conteúdo, em nome de uma mensagem, em nome muitas vezes do sentimentalismo mais meloso, eles despacham suas sopas de serragem ou seus mocotós azedos ou seus arranjos florais de plantas tóxicas ou plásticas. E devem ter um imenso prazer nisso. Sempre imagino a cara de satisfação do Rui Barbosa cada vez que conseguia acrescentar mais um adjetivo a uma frase. Nota-se em cada linha do Rui Barbosa que ele ficava molhadinho escrevendo. Sim, o Rui Barbosa, disparado um dos piores textos em português. Nem torcicolo de girafa se compara.

Mais do mesmo

Marcos Rey: “Entreter também é um objetivo respeitável”.

Isso me leva a duas observações do Stevenson. Primeira: “Sensíveis à existência de recônditas virtudes difíceis de alcançar, muitos artistas se formulam ou assimilam receitas artísticas ou se apaixonam talvez por alguma habilidade particular, esquecendo o objetivo de toda arte: deleitar”.

Sei, muita gente vai dizer que o objetivo da arte não é deleitar, mas revelar o homem, o mundo, o diabo a quatro, ou algo por aí. Então entra a segunda observação: “Deleitar é servir; não é difícil instruir e entreter ao mesmo tempo, mas, em troca, é muito difícil conseguir plenamente o primeiro sem o segundo”.

Ói nóis na fita

Não sei quantos livros traduzi – cinquenta, sessenta, setenta. Peguei todo tipo, de brilhantes e divertidos a calhamaços banais e ilegíveis. Mas só agora, tantos anos depois de entrar nessa batalha, conheci o sabor do meu próprio veneno.

O melhor de tudo é que isso aconteceu sem que eu fizesse força. Simplesmente o pessoal da Éditions Ipagine, de Paris, andou examinando os catálogos das editoras brasileiras e foi com a cara do Amigos da onça (Companhia das Letrinhas, 2006). Segundo a contracapa, “Ces histoires du Brésil ‘ont du sang inidien’ dans les lignes pour la chaleur et l’exotisme qui s’en dégagent”. Sim, me senti tipo Peri, mas o pessoal da Ipagine sabe que várias dessas histórias são europeias, que eu aclimatei aos trópicos.

Não nego, fiquei apreensivo. Ao mesmo tempo me senti resignado antes mesmo de ver a tradução. Era como se eu me dissesse: é assim mesmo, cara, não esquenta. Os leitores de livros traduzidos devem saber que não estão provando as mesmas doses de sal e pimenta.

A editora, muito respeitosamente, me mandou o texto. Apesar do meu francês de ginásio, achei que a tradução estava certinha, mas sem jogo de cintura. Então minha amiga Elisa Henkin me fez um tremendo favor: cotejou a tradução com o original, linha por linha. Minha suspeita estava certa. Como era esperado, meu humor foi o que mais se danou. Mas não pedi que a Alessandra Bourlé, a tradutora, modificasse uma palavra, até porque não tinha nem um bom palpite.

Enfim, o Amigos da onça se tornou Les amis du jaguar. Como a edição é bilíngue, dividiram os amigos em quatro volumes, pra não assustar as crianças com um calhamaço de duzentas páginas. Mantiveram as ilustrações da grande Marilda Castanha, com numa nova montagem, que ficou interessante, apesar das capas escolares (vide imagem do volume três).

Agora aguardo o convite da Ipagine pra autografar em Paris. Irei, com prazer. Desde que não tenha de ir de tanga e cocar.

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Autor

Ernani Ssó

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