A resposta de todas as coisas parece estar nos livros, especialmente para aqueles que leem. Em sentido amplo, boa parte daquilo que o mundo pergunta, é possível que seja respondido por alguma publicação. A defesa pela leitura – uma defesa em que estou incluído – é uma chave, sem sombra de dúvidas, para combater esse mundo à parte, em que a terra é plana, a ciência pode ser refutada com opinião e a verdade é uma mera questão de ponto de vista. Mas a leitura, é, antes disso, chamando para a conversa Pierre Bourdieu, um habitus: um conjunto unificador de pessoas, isto é, quem lê, forma um círculo que constitui práticas semelhantes. Se a tradução disso ficou mais complicada, vamos nos próximos parágrafos desenvolver para chegar onde eu quero – com mais simplicidade, benevolência e menos firulas (propositais, diga-se de passagem).
A leitura é um hábito para quem é privilegiado no Brasil. Boa parte de sua população lida com o trabalho, com o cotidiano e com as coisas rotineiras bem antes de conseguir acessar a leitura para que ela se torne um costume. Na era da ostentação e das redes sociais, ler se torna uma atividade entediante. Existe o que é obrigação e o que é lazer. A obrigação é formada do trabalho, do cuidado com a família, com os afazeres, com seu entorno e com a regulação social do estado – pagar impostos, respeitar o próximo etc. O lazer é autoexplicativo. É todo aquele tempo dedicado para fazer as atividades de bem estar. Relaciona-se, atualmente, com uma voraz sociedade de consumo que ultrapassou aquela máxima do “compre, compre!” para o “faça, seja, mostre, apareça!”. É como se o Andy Warhol (15 minutos de fama) tivesse superado o Ciro Bottini (compre, compre, compre!). Não basta só comprar. O materialismo das coisas adquiridas deu lugar a um materialismo diferente, onde não basta ter; também não basta ser; é preciso, ter, ser e mostrar, aparecer.
Debord, com a sociedade do espetáculo, previu brilhantemente tudo isso, bem mais que os incensados pensadores abraçados por muitos como definitivos em suas convicções. Tudo é espetáculo nos tempos atuais: a ideologia é espetacular, a pauta humanitária é espetacular, a defesa de um movimento tornou-se um espetáculo. E é preciso, sobretudo, mostrar. Na guerra ideológica, defende-se ponto de vista com essa máxima que retira de todo o debate boa parte da população – fora do habitus: “se você ler um livro, você vai entender tudo isso”.
Ler, que é uma das coisas mais maravilhosas do mundo, é uma experiência pessoal e intransferível. A interpretação de cada obra é voltada para os significados, crenças, valores e experiências de cada pessoa. Por mais que seja claro o “papai chegou em casa”, a imagem que cada um faz desta cena é única. Qualquer coisa lida é interpretada de forma diferente, a mensagem é sempre plural e, a posteriori, ressignificada conforme cada receptor. Dizer que “leia Marx para entender o que está acontecendo” é de um absurdo retórico que beira a desonestidade intelectual. Aliás, um dos males dos neoleitores é defenestrar por completo as obras que enfatizam o cotidiano, dando preferência àquilo que compõe um espectro que lhe conferirá uma autoridade intelectual. Bauman, por exemplo, saiu da alcunha de gênio para se transformar em marqueteiro filosofal de quinta categoria depois que disseram para esta turma que “ei, ele é pop, cuidado!”.
Se eu oferecesse “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que é uma obra cotidiana, real, feroz, contundente, seria possivelmente rechaçado. O neoleitor jovem brasileiro acredita que sua vida pode ser contada e explicada por Simone de Beauvoir, Sartre ou Nietzsche. São ótimos autores. Mas esse neoleitor entenderia muito melhor o entorno se, antes deles, lesse “Vidas Secas”, “Triste fim de Policarpo Quaresma” ou “Macunaíma”. O neoleitor brasileiro não conhece o Brasil. Esse é o grande problema que nos dirige até à chave da questão essencial.
O Brasil cotidiano, que, nestas obras, está, em metáfora, em sentido físico e em absurdo significado, não faz parte do horizonte de quem afirma que “basta ler a dissertação de 1999 do fulano sobre tal assunto que você tem a resposta”. Dizer isso é abstrair uma realidade de um povo que tem pouco acesso à leitura e que não pertence a este habitus. Se a gente quer um povo que leia, a transformação começa pelo cotidiano, pelo contexto que sai da relação próxima e atinge o todo. É preciso que a gente entenda a nossa gente e respeite que o aprendizado de pessoas que precisam e – veja só – QUEREM aprender se dá a partir do tempo que elas têm para isto. A didática não é só na letra, é na abordagem. Não é só na fala, é no gesto. Não é só no seminário, é na mesa de bar. Não é só na palestra, é na conversa a dois. Mudar as coisas é bacana pra caramba, o Belchior até dizia que, junto com amar, interessava-lhe mais. Mas saber COMO mudar essas coisas é o ponto de partida essencial para combater a ignorância, seja ela normativa, seja ela estética, seja ela deslumbrada.
