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Lentes cor-de-rosa

Faz horas, estou dando voltas e voltas por sites e mais sites tentando buscar um assunto leve, apropriado para este verão brasileiro, supostamente de …

Faz horas, estou dando voltas e voltas por sites e mais sites tentando buscar um assunto leve, apropriado para este verão brasileiro, supostamente de descanso para a maioria, de praia, sol, mar etc. Essa coisa idealizada de férias que a gente aprende antes mesmo de nascer. Afinal, engatamos o segundo mês de verão neste ano. Ano, aliás, que deveria nos mobilizar a fundo pela eleição da criatura que, por quatro anos, vai determinar coisas importantes na nossa vida. Como se vamos continuar brincando de ser o país bambambã do mundo, embora tenha gente comprando esmalte e cigarro com dinheiro do bolsa-família. Ou ainda se vamos medir forças com os Estados Unidos numa tragédia como a do Haiti para mostrar que somos o rato que ruge mais poderoso dos novos tempos.

O noticiário, como sempre, não estimula exercícios otimistas. Continua chovendo absurdamente no Brasil e no entorno, gente morre como barata em deslizamentos e vai continuar morrendo porque nem uma autoridade vai se ocupar em impedir que continuem as construções encarapitadas em morros.

Claro, vamos ter mais e mais carros novos nas ruas, porque está tudo maravilhosamente bem para quem já tinha grana, e o povão já se encheu de carnês para exibir novos refrigeradores e ventiladores e fogões em suas casas alugadas ou de invasão. Do que se queixar, então?

Temos um presidente com quase unanimidade de aprovação, capaz de deixar mais atrapalhado que de costume até Caetano Veloso que não sabe se fala mal ou elogia “the man”.  Um presidente tão bom, mas tão bom, que teve até um dodói por trabalhar demais em favor do país, ou do que ele pensa ser seu país – os conchavados, os cumpanhêro, os puxa-sacos que o incensam e os falsos que aplaudem em frente e riem debochando pelas costas. E, claro, os hipnotizados por sua mise-em-scène de simples mas sábio e justo.

É verão. O Haiti, paulatinamente, vai deixando as capas de sites, perdendo páginas principais em jornais e revistas, passando a ser uma tragédia a mais na vida de todos. Em breve, haverá quem diga: ah, chega de falar em terremoto do Haiti! Já cansou este assunto! E, de novo, quem se importará com as crianças haitianas mutiladas, com as raptadas, com as prostituídas? Que importarão elas, se não gerarem outras imagens chocantes ou iluminadas de esperança para câmeras e enviados especiais parirem seus textos cheios de maneirismos destinados a arrancar lágrimas dos leitores e espectadores?

É verão. Acho que devo recolher meu mau humor, minha veia crítica antipática e botar meus óculos escuros. Escuros? Nada: vou procurar um de lentes cor-de-rosa. Pode ser que, assim, eu deixe de ser tão chata.

Autor

Maristela Bairros

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