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Liberdade e tolerância

Liberdade de imprensa é pressuposto da democracia, mas democracia é um conceito ocidental. E mesmo no ocidente confunde-se liberdade – de expressão, de ir …

Liberdade de imprensa é pressuposto da democracia, mas democracia é um conceito ocidental. E mesmo no ocidente confunde-se liberdade – de expressão, de ir e vir, de opção sexual, de credo religioso, ou de morrer de fome por conta própria – com democracia, que é um sistema de governo no qual as decisões são tomadas pelo povo, se não diretamente, o que é praticamente impossível, ao menos da forma mais representativa possível. Liberdade e democracia não são a mesma coisa. Sem liberdade não há democracia, mas pode haver liberdade sem democracia, que é mais ou menos onde se situa o modelo brasileiro. O povo mesmo sempre fica longe das decisões. Ou alguém ainda acredita que em 2002 foi o povo que chegou ao poder?

O Brasil é hoje um país livre, mas não democrático em seu sentido mais amplo. Democracia exige igualdade, não absoluta, posto que é quimérica, mas igualdade de oportunidades. Os EUA orgulham-se de proporcionar oportunidades iguais a todos, mas os milhões de excluídos americanos provam que isto não é verdade. A diferença é que o capitalismo de lá não provoca desigualdades tão profundas.

Liberdade de expressão não serve para nada quando tantos passam fome, dizem os céticos, mas a história mostra que a falta de liberdade nunca matou a fome de ninguém por muito tempo, e ainda retira o tema da pauta do dia. A ausência de uma imprensa livre é o sonho de consumo de dez entre dez tiranias. Como reinar absoluto com um bando de patéticos jornalistas enchendo o saco?

A questão das charges de Maomé envolve muito mais do que regimes de governo ou sistemas econômicos. Envolve fé, o aspecto mais perigoso das discussões filosóficas. Seria simples dizer que fé não se discute, se respeita. Mas neste embate a simplicidade há muito foi destroçada, e a fé tem sido, ao longo da história, usada para transformar fiéis em massa de manobra. Por todas as religiões.

Numa região onde religião e Estado nunca foram separados, nada é feito apenas em nome da fé. Em Estados laicos, brincar com ícones religiosos pode ser discutível e causar protestos, mas ninguém mata por isso. Estados laicos promovem a tolerância. Sem ela, o risco de uma guerra santa sair dos discursos terroristas para o plano geral é bem concreto.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

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