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Liberou geral

O furo no casco do navio aconteceu quando se viu que as pessoas não precisavam ser sisudas para serem sérias (corretas, íntegras). Aconteceu um …

O furo no casco do navio aconteceu quando se viu que as pessoas não precisavam ser sisudas para serem sérias (corretas, íntegras). Aconteceu um pouco com a psicanálise e com Freud, que mostrou a todos (ou a quem quis/quer ver) que todos somos cheios de desejos contidos, idéias malucas e instintos que só contemos em função da civilização. Que todos somos crianças, travadas pela nossa casca social. Assim, já vinham dizendo os filósofos há mais tempo.

Houve lá um surto de liberação nos anos 60, com o movimento Hippie, Woodstock. Pois a sociedade se dividia entre os que apoiavam aquele movimento de libertação e os que eram radicalmente contra. Mas ali também aconteceu outro furo no casco do navio. Deu pra ver que não eram só os que portavam gravatas nem os que usavam cabelo à escovinha (meu Deus, como estou ficando velho! E rápido!) que tinham direito à felicidade. E que a felicidade era uma calça jeans, azul e desbotada.

Pois tínhamos, na minha casa de infância, um relógio com pêndulo, daqueles bem antigos. E meu pai dizia que a moda era como o pêndulo: ora ia para um extremo tudo o que dava, ora retornava. Eu digo mais, nesta livre reflexão pendular: a sociedade também é assim: vai a um extremo, radicaliza, depois vem de volta para o outro extremo. Com este movimento de liberação também foi assim: alguns pais entenderam que era um “liberou geral” e que podiam fumar maconha com seus filhos e tratá-los como se fossem pequenos adultos.

Andando um pouco mais pra frente nesta linha do tempo imaginária, chegamos aos dias de hoje, em que muitos escritores estão acusando um fenômeno que se instalou: os adultos querem desempenhar papéis de criança, aparência juvenil, esquecendo que os adultos aqui são eles, não seus filhos. O que está criando uma geração de muito botox, angústias infantis e um quase desmamar contínuo.

Sou dos que concordam que na vida das pessoas, falando sobre seus sentimentos e sobre seu agir, não há fronteiras claramente delimitadas. As cores se misturam, os tons se confundem. Fronteiras mesmo há nos limites dos países (e ainda assim, algumas inexeqüíveis, como na Amazônia) e no meu cheque especial. No resto, tudo é relativo. E realmente é relativo. Porém, há papéis. E os papéis, sim, precisam estar definidos.

Autor

Flavio Paiva

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