Numa crônica, no Blog da Companhia (das Letras, bem entendido), Joca Reiners Terron fala de vários autores brasileiros importantes que são desconhecidos do público e, pelo jeito, dos críticos. Lá pelas tantas, ele diz: “O crítico literário brasileiro do século 21 é um provinciano às avessas, preferindo valorizar o estrangeiro a parecer caipira”. Não sei se isso é verdade, simplesmente porque não leio esses críticos. Mas vi, várias vezes, acontecer o contrário: críticos supervalorizando nossos escritores na tentativa de não ficar atrás na preferência das musas.
A crônica do Joca causou uma enxurrada de comentários. Ao contrário do que acontece em geral, houve vários bem informados e bem articulados. Entre eles, destaco o de um tal Rodrigo Rosa (não é o ilustrador gaúcho, chequei), com quem não só concordo mas aplaudo:
“Qualquer opinião sobre literatura embasada em critérios de nacionalidade, a meu ver, já nasce capenga, sendo esta contra ou a favor do cronista. Toda literatura merecedora de ser considerada como tal é excepcional. (…)
“Engraçado o (César) Aira ser tomado como parâmetro, um autor que trata a literatura argentina na base da paulada.
“Não creio em ceticismo e muito menos em má vontade: nossas exceções são pouco editadas e pouco divulgadas. O problema está aí.
“A princípio, toda e qualquer literatura é irrelevante. Não dá pra medi-la em critérios regionais (talvez nem temporais; menos ainda, deusnoslivreguarde, por recepção crítica ou ‘bombância’ acadêmica… vade retro)”.
Nós, os interessantes
Ouvi falar várias vezes do escritor argentino César Aira, mas nunca o li. Dizem que tem imaginação delirante. Preciso conferir. Imaginação delirante é um dos meus fracos.
Além de romances, ele escreve ensaios, crítica literária. Declarou que a literatura brasileira é a mais interessante e variada do continente. Confesso que não sei. Não conheço praticamente nada de um punhado de países, como Chile, Guatemala, Equador, Bolívia ou Uruguai. Mas comecei a desconfiar das opiniões de Aira porque ele é fã incondicional do João Gilberto Noll. Como um romancista que não tem nada pra dizer e o diz da forma mais desleixada possível, sendo muitas vezes ilegível ainda por cima, pode ser levado a sério? Imaginação delirante em ficção pode ser uma bênção, mas na crítica? Convenhamos, seu Aira.
Argumentação
Se alguém pensa que estou sendo mesquinho com o Noll, ao afirmar sem argumentar, procure na Zero Hora uma resenha que fiz de Harmada (caderno de Cultura, 21-08-1993). Lá está tudo preto no branco. Mas posso dar dois exemplos da prosa do Noll, pinçados de Lord: “Tudo é motivo de consideração, quando no fundo se almeja adiar a conclusão espinhosa de tomar.” (p. 91/92); “E que quando se volta de uma coisa assim o geralmente pouco ou quase nada que a vida pode dar começa a querer extrapolar para cima, entende?…” (p. 71). Haja patriotismo pra engolir isso, não?
Eu, patriota?
Se o patriotismo em política, como dizia o doutor Johnson, é o último refúgio do canalha, em literatura pode ser o último refúgio do imbecil. Ler e gostar de A moreninha porque ela é brazuca? Faça-me o favor. Eu releio Machado, Trevisan, Lispector (a contista), Campos de Carvalho, Quintana e outros, mas releio muito mais Borges, Cortázar, Sófocles, Svevo, Nabokov, Tchecov, Turguiniev, Stendhal, Graham Greene, Simenon e Conrad, por exemplo. O que guia minhas leituras são necessidades profundas, não o preenchimento de fichas de leitura ou o patriotismo: leio como um bicho em busca de sal. Se o sal que meu corpo precisa está mais em O morgado de Ballantrae, do Stevenson, do que nas Memórias póstumas de Brás Cubas, o que eu posso fazer?

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