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Livros proibidos

Eu ia deixar pra lá, porque, quando esta nota for publicada, o assunto já enrolou muito peixe no mercado ou desapareceu no ciberespaço. Mas …

Eu ia deixar pra lá, porque, quando esta nota for publicada, o assunto já enrolou muito peixe no mercado ou desapareceu no ciberespaço. Mas a proibição de livros mexe comigo. Sou do ramo. Quer dizer, não do ramo da proibição, mas da escrevinhação.

Só pra refrescar a memória. O município de São Paulo e o Estado de Santa Catarina compraram livros para distribuir nas escolas. Umas professoras chiaram. Umas autoridades botaram o rabo entre as pernas. A galera caiu de pau em todo mundo.

Li o poema do Joca ReinersTerron que causou o pior bafafá. Não gostei. Mas e daí? Muita gente acusou as professoras que reclamaram de moralistas e disseram que apenas a qualidade literária devia ser levada em conta. Qualidade literária não pode ser medida como a altura física do autor, com uma fita métrica. Mesmo grandes críticos discordam sobre autores ou obras.

Sempre vai haver alguém dizendo que o livro distribuído na escola é um lixo ou é genial. Então é meio complicado argumentar por aí. Minha preocupação, nesse campo, é que raramente, muito raramente, se pergunta às crianças se elas gostaram ou não do que leram. Nem se pede para explicarem por que gostaram ou não, ou para argumentarem umas com as outras suas preferências.

Num dos versos, o Joca manda bala: não ame, estupre. O argumento geral foi que uma criança de nove anos não tem inteligência suficiente para entender a ironia, como se o poema esse fosse um abismo de sutilezas. Deve ser verdade, já que tantos adultos também não entenderam patavina. Mas, pelo que tenho visto em dezenas de escolas que visitei, as crianças entendem direitinho, principalmente quando querem fazê-las de bobas. E as que não, logo entendem, se houver discussão em aula. O que me parece mais grave é que tanta gente especializada em educação não tenha mencionado o óbvio: o poema é inadequado muito menos pela linguagem desbocada, ou por parecer incentivar a violência quando diz o contrário, do que por tratar de um assunto que não preocupa uma criança de nove anos.

Esse poema é tão inadequado quanto Machado de Assis sendo empurrado goela abaixo em crianças de onze anos com a vaga desculpa do patriotismo ou com a ameaça de que vai cair no vestibular um dia. Talvez fosse sensato, antes de começarmos a defender as crianças, ter uma noção de quem elas são.

Li uma das cenas do romance do multipremiado Cristóvão Tezza, que o governo catarinense recolheu. Trata de sexo oral. Não do ato, em detalhes. O personagem apenas declara o que fez com uma palavra. Até aí aguentei firme. Então o Tezza compara a coisa com chupar um pêssego maduro. Minha reação foi imediata: tem que recolher mesmo o livro e se possível queimar em praça pública. Mas como eu mesmo acabei de dizer que uma opinião sobre qualidade literária não vale quase nada, me contive. O gozado é que essas mesmas professoras que taxaram de “banal” o tratamento do sexo nessa cena aceitam alegremente A moreninha e outros atentados ao bom gosto e à inteligência. O critério, parece, é ter ou não palavrão. Por esse critério o governo deve recolher das escolas o Houaiss, o Aurelião e o Caldas Aulete.

Falando sério, pra variar. Esse romance, Aventuras provisórias, foi comprado para adolescentes entre os quinze e os dezoito anos. É isso mesmo. As professoras e o governo estão protegendo muitos adolescentes que já são pais e que, desde os onze ou doze anos, veem na internet homens e mulheres chupando pêssegos maduros ou algum produto hortifrutigranjeiro como pepino com cachorros, cavalos, ovelhas, porcos e outros bichos de estimação. Tenham paciência.

Ainda bem que alguém lembrou de um artigo escrito pelo Monteiro Lobato. A sugestão dele, para incentivar a leitura entre adolescentes, era romances como Teresa filósofa. Vocês sabem, é um romance erótico do século dezoito, atribuído a Jean Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens. Eu achei bem divertido, mas não sei se não seria uma decepção para a maioria. A história de Teresa era provocante num tempo em que ver dois dedos da canela de uma mulher fazia o cara espumar no canto da boca, enquanto uivava pelas esquinas.

Outro dos livros proibidos é de geografia. Pasmei. Onde, pelamordedeus, as professoras viram sexo? Problemas nas ilhas Bikini? Alguma alusão suspeita ao Recôncavo Baiano? Nada disso. Num mapa da América do Sul, o Paraguai aparecia duas vezes, mas a Venezuela ou Equador faltava. Sem comentário. Ou melhor, nesse caso o autor, o editor e o funcionário do governo que aprovaram o livro devem devolver o dinheiro e levar cem chibatadas cada.

O ensino da literatura sempre foi um problema. Talvez a gente devesse começar se perguntando para que serve a literatura. Eu tenho uns palpites. Mas entre eles certamente não está ensinar a não dizer palavrão, a ser um bom menino e a escovar os dentes.

Autor

Ernani Ssó

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