Sempre que vejo uma dessas loirinhas feitas em série nos Estados Unidos sendo escolhida como a mulher mais sexy por alguma revista, me lembro da Fanny Ardant. A beleza é muito mais complicada do que um nariz arrebitado e proporções medidas com fita métrica.
Desculpas papais
Quase virou rotina o papa pedindo perdão pelos crimes dos padres pedófilos e pelo acobertamento. Imagino que isso tranquiliza os católicos mais carolas. Mas eu não consigo relaxar. A Santa Madre Igreja inventou o perdão e o tornou um bom negócio. Há séculos vem perdoando e pedindo perdão pelos crimes mais imperdoáveis. O papa se parece com certos milicos brasileiros, que acham que exigir que criminosos prestem contas num tribunal é vingança. Acho que nunca viram um filme do Charles Bronson.
Campanha eleitoral
Que os candidatos se levem a sério, eu compreendo. Que os jornalistas, pra justificar os salários, falem a sério deles, eu compreendo — com algum esforço, mas compreendo. Agora, por favor, não esperem que eu participe da farsa, a não ser pra atirar alguns ovos podres.
Ideologia
Vejo jornalistas calejados detalhando as diferenças entre os partidos. Por trás dessas graves análises, ou abaixo ou pairando acima, no éter indizível, está a palavra ideologia. Pena que poucas vezes se mencione outra palavra que está bem mais saliente, como estelionato.
Ecos da copa
É costume, na África do Sul, comer ou fumar o cérebro de uma espécie de abutre, conhecida como do Cabo, para prever o resultado dos jogos. Naturalmente o bicho está ameaçado de extinção. Pelas minhas contas, a única coisa que não está ameaçada de extinção é gente burra. Por ora. Porque um dia vai ter tanta gente fumando cérebro de abutre ou similares que até os fumantes irão pro beleléu.
Influências
Claro que eu li muito Rubem Fonseca, como todos da minha geração. Aprendi com ele a ser rápido no gatilho, atirar antes e perguntar depois. Mas atribuir qualquer história de crime, escrita de modo seco, a uma influência do Fonseca me faz pensar que os resenhistas acham que a gente não leu mais ninguém. Mas a gente leu, sim, começando pelos autores que o próprio Fonseca leu. O mais provável é que os resenhistas não tenham lido mais ninguém.
Roberto Bolaño
“2666”, o romance interminável de Bolaño, foi traduzido no Brasil como “2666”. Já é um começo. Temi que se chamasse “2666 — Depois daquele beijo” ou “2666 — Tudo para ficar com ele” ou “2666 — Uma rajada de balas” ou “2666 — As panteras detonando” ou mesmo “2666 — E as noivas chegaram…” ou ainda “2666 — De médico e de louco todos têm um pouco”.
Conto matrimonial
O desenhista Lancast Mota me falou de um viúvo que, na volta do cemitério, comprou um jornal e o guardou. Todo dia, pelo resto da vida, fez isso. A casa ficou atulhada, do assoalho ao teto, de jornais não lidos. Perfeito: ele já conhecia a única notícia que interessava.

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