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Loucura e censura

A vida, às vezes, é muito estranha. E confesso que, não fossem meus filhos, meus pais e alguns poucos e fiéis afetos, eu estaria …

A vida, às vezes, é muito estranha. E confesso que, não fossem meus filhos, meus pais e alguns poucos e fiéis afetos, eu estaria achando que ela está mesmo perdendo a graça. Motivos para isso não faltam. Como, por exemplo, quando acontece de uma pessoa que a gente admira há muitos anos e acha até que conhece, mas de quem discorda política e ideologicamente, te chama de louca, publicamente. Assim, com uma naturalidade assombrosa. Foi o que fez, aqui mesmo, no Coletiva, o jornalista Antonio Oliveira, meu ex-vizinho, pessoa de minhas boas lembranças e colega de outros tempos, quando eu, então uma foca insegura, começava minha vida profissional.

Pois o Antonio integra a galeria de retratos desta jornalista quando jovem. Eu, ainda aluna da Fabico, tentando “entrar no mercado de trabalho”, o conheci como aquele cara sempre agitado, que soltava um monte de palavrões (e eu, filha única de mãe severa, ria amarelo pra não parecer mais boba do que era!), com um cabelo vermelho sempre despenteado, bigodão de Papai Noel irlandês, e que chamava as colegas mais novas de “guriazinha”. Com tudo isso, convenhamos, não tinha como não ser um dos meus tipos inesquecíveis.

Mas o Antonio, esta semana, pela primeira vez comentou textos meus no Coletiva e o fez sobre meu texto “As Machado de Azevedo”, que escrevi às vésperas do segundo turno, enfatizando minha escolha por José Serra. No primeiro comentário, Antonio lamentou as últimas frases do texto em que eu lembrava o passado de terrorista de Dilma Rousseff e enfatizava o estilo de Hitler em Lula em sua manipulação de massas. Detalhe que me chamou atenção: Antonio não elogiou nem criticou o resto do texto, como de resto jamais se manifestou sobre nada que eu tenha escrito, mas apenas enfatizou seu desgosto com as frases finais da crônica em questão.

Chateada, por entender que apenas a questão ideológica havia sido levada em conta, lamentei, na minha réplica, a censura de Antonio. Só que ele não entendeu o sentido da palavra no contexto: censura, pito, carão, chamada de atenção. E fez sua tréplica em que o que realmente me aborreceu foi dizer que devo ter problemas, mas “na área psiquiátrica”. Não fez qualquer análise jornalística ou sobre pensamento político. Mas me chamou de louca.

De Antonio lembro, principalmente, que ele e sua família moravam, como eu, na vila operária do IAPI, e que um dia, por sugestão dele mesmo, já colegas de trabalho na Zero Hora, fui cortar meu cabelo no salão que era de sua sogra (de quem ele falava com muito orgulho e carinho), e que ficava, acho, na rua Mariante, bem na subida. Era um casarão grande, um salão muito chique para uma garota de subúrbio como eu, que fiquei toda feliz por ter merecido a atenção do cara que, enquanto eu estava começando, já era um grande jornalista. Até pouco tempo, eu me lembrava do nome da simpática e competente cabeleireira, da então mulher de Antonio (outra simpatia), e até das filhas, de quem ele falava embevecido.

Antonio tinha – será que ainda tem? – uma risada tonitroante que, quando lhe vinha, fazia com que ele se jogasse para trás, uma risada que meio que assustava embora divertisse. Ele, porém, me inspirava confiança, tinha aquele jeito de irmão mais velho, boa praça, um profissional que eu queria muito imitar, dentro de meus parcos limites. E lá se vão quase 40 anos! Um dia, eu soube que Antonio havia partido para a África. Só vim a reencontrá-lo numa festa, no lugar que um dia foi a boate Cord, se não me engano lançamento da candidatura de Tarso Genro ao governo do RS, em que fui acompanhando minha amiga Vicky Kauffmann, assessora de imprensa da Secretaria Municipal da Cultura.

Antonio não lembrou de mim quando fui abraçá-lo nesta ocasião. Ok. Compreensível: quantos saem de nosso dia a dia e, quando a gente os reencontra, fica aquele vácuo, um certo estranhamento, porque ninguém é obrigado a ter lembranças nossas como as que nós cristalizamos em nosso coração, em nossa memória. Há algumas semanas, vi, no twitpic, uma foto em que ele aparece com Olívio Dutra, no restaurante Naval. O instantâneo risonho foi feito por Raphael Falavigna, um fotógrafo do site Terra. A fotografia me proporcionou sentimentos contraditórios: alegria por ver Antonio igual ao que sempre foi, só com um pouco de geada na barba e no bigode, e tristeza por ele estar na companhia de Falavigna, um covarde que se esconde atrás do codinome @SeoCruz no twitter onde me brindou com adjetivos como porca, lixo, cadela e outras coisas do gênero por eu criticar o PT, Lula e Dilma.

Pois eu ia escrever, hoje, sobre o absurdo de o Conselho Nacional de Educação vetar a leitura de Monteiro Lobato nas escolas, justo o autor que foi o mais nacionalista dos nacionalistas, criador da frase “o petróleo é nosso”. Eu ia comentar (e ainda o farei, em outra ocasião) o desmonte com aparelhamento da educação até a raiz, nestes oito anos de governo Lula, ação que considero tão (ou mais cruel) quanto aquela feita sob o regime militar para controlar o pensamento dos brasileiros desde a mais tenra idade. Mas o segundo comentário de Antonio, me dizendo que sou caso para psiquiatra, me trouxe para as presentes linhas.

Então, preciso dizer que tenho de acrescentar mais um “lamentável” aos que eu já tinha enfileirado na minha réplica à censura que Antonio (atenção, Antonio: censura no sentido de condenação, repreensão, crítica) me fez ao pinçar apenas frases finais de um texto. Uma censura que é estratégia tipicamente petista de desqualificar o outro chamando-o de louco, desequilibrado, fora de suas “faculdades mentais”.

Lembra, Antonio, quando eram os anos 70 do século passado e a gente ficava indignado com uma coisa chamada “patrulha ideológica”? Pois é! Eu ainda fico. Um abraço pra você. E, só pra confirmar, não estou louca, embora sim, tenha uma excelente psiquiatra que me segura e medica nestes tempos tristonhos e sombrios de tanta maldade em torno. Eu enfrento meus fantasmas, sim, e tenho orgulho disso, porque tenho filhos e meus pais velhos e doentes que ainda moram no IAPI para zelar. Se souber de alguém que precise, Antonio, posso indicar minha médica.

Autor

Maristela Bairros

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