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Luiz Schwarcz

Hoje sou freguês, mas comecei a ler por curiosidade, porque o Luiz Schwarcz, no Blog da Companhia, contava as aventuras da formação dele como …

Hoje sou freguês, mas comecei a ler por curiosidade, porque o Luiz Schwarcz, no Blog da Companhia, contava as aventuras da formação dele como editor na Brasiliense e as dos primeiros tempos da Companhia das Letras. Boas histórias narradas com clareza e bom humor, que mais eu poderia pedir? Fofocas sobre os autores. Nesse ponto, Schwarcz é muito discreto. Eu também seria, embora torça pra que os outros não sejam. Mas em troca Schwarcz tem a coragem de falar de si mesmo, de inseguranças ou situações nada heroicas. Uma dessas confissões me tocou mais de perto: ele deletou um romance depois de pronto. Sim, senhor, não gostou do livro. Não vi muitos escritores fazendo isso. Não com os olhos secos. Paulo Hecker Filho, quando soube que eu já me desfizera de mais de um original, achou um luxo. Me disse que eu era um profissional. Eu respondi que não. Profissional são os que faturam com cada linha que escrevem. Agora, depois dessa história do Luiz Schwarcz, me recolhi à minha insignificância. Que eu jogue fora um livro que acho ruim, quando tenho dificuldade de publicar até os que me parecem bons, pode parecer sensacional pras minhas negas. Agora, que o dono de uma editora faça isso, francamente, é de tirar o chapéu, como se dizia no tempo em que os chapéus estavam na moda.

Velhos tempos

Encontrei uma carta que escrevi pra minha mãe aos dezenove anos. Era curta e de uma banalidade total, mas fiquei surpreso: tinha mais de dez pontos e vírgulas. Fiquei muito surpreso: os pontos e vírgulas estavam certos. Diabos, quem será que eu era?

Laguna

Voltando a Porto Alegre, passamos no Farol de Santa Marta, pra rever amigos. No primeiro restaurante, encontramos o fotógrafo Eduardo Tavares. Comentando que a praia ali continuava o atraso de sempre, o Eduardo contou uma história que, segundo ele mesmo, resume numa frase a situação da região.

Em Laguna, em busca de uma vaga, ele achou uma travessa sem carro nenhum. Lá pelo meio, uma placa de proibido estacionar. Então estacionou um pouco antes dela. Quando voltou, tinha um guardinha andando em roda do carro, pronto pra multa. O Eduardo quis saber por quê. Era proibido, ora, não estava vendo a placa? Mas a proibição de uma placa começa a valer depois dela, não é retroativa, ele explicou delicadamente. O guardinha disse que não, a proibição valia pra trás. Mas em todo mundo vale a partir da placa, ele insistiu. Então o guarda foi definitivo: “No resto do mundo pode ser. Aqui, é assim”.

Empate técnico

Olha só: andei relendo “Trópico de câncer”, do Henry Miller, e minha opinião permaneceu a mesma de quase quarenta anos atrás. Muita conversa fiada, mas magnífico quando Miller deixa de se fazer de interessante, quando esquece as baboseiras metafísicas e passa a contar a vida dos amigos, gente escrota, louca, mesquinha. Sabe-se que ele mentiu, que exagerou horrores, mas e daí? Ele estava fazendo literatura, não um relatório. Uma opinião que dura mais de trinta anos me parece suspeita. Ou eu era um adolescente muito espertinho ou hoje sou um velho bobo.

Descrições

o0o Ele vinha com um sorriso franco nos lábios, um malicioso no sovaco e um disfarçado na virilha, mas que o fazia mancar um pouco. o0o As lágrimas lhe corriam pelas faces, faziam a volta no pescoço, subiam pela nuca e evaporavam no alto da careca. o0o Ele piscou os olhos, mas não conseguiu piscar as orelhas nem os dedões. Incompetente. o0o Ela estava inteiramente nua — isto é, sem roupa, sem pele, sem carne, apenas o esqueleto.

Problema grave

Sofro de um problema grave. Me oferecem trabalho? Eu topo.

Autor

Ernani Ssó

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