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Mais patriotismo literário

Meu patriotismo literário morreu antes de nascer. O primeiro livro que li sozinho, inteiro, foi o Robinson Crusoé, do Daniel Defoe. Adorei, ou mais, …

Meu patriotismo literário morreu antes de nascer. O primeiro livro que li sozinho, inteiro, foi o Robinson Crusoé, do Daniel Defoe. Adorei, ou mais, foi com ele que tive consciência clara de que não me bastava ler, que eu também precisava escrever. Não quero romantizar: isso poderia ter acontecido com vários outros livros. Sem falar que o terreno tinha sido preparado pelas inumeráveis histórias que meu pai tinha me contado e que uma prima tinha lido pra mim. Talvez deva incluir nessa soma a minha própria neurose. Mas há em Robinson Crusoé algo que mexe direto com nossos sonhos mais profundos. Se não houvesse, não teria se tornado um livro que encantou várias gerações e está aí, ainda de pé, ainda ágil, quando tanto lançamento já sai de cadeira de rodas.

Em seguida li alguns outros romances famosos de aventura, como Os três mosqueteiros, Os irmãos Corsos e O homem da máscara de ferro, todos do Alexandre Dumas. Como dizia o Cortázar, a gente deve reler Os três mosqueteiros pelo menos uma vez por ano. Os Dumas foram seguidos por dois James Fenimore Cooper, que jamais reli, mas que me deixaram num estado de encantamento que lembro com prazer até hoje: O último dos moicanos e O caçador. Meu sonho, na época, era ter um gorro de pele de castor. Foi um desejo alucinante: na falta de castor, eu andava atrás até de coelhos. Não sei como desisti do gorro. Talvez quando quis uma gabardine de detetive particular.

Quando acabei os livros do Cooper, não encontrei mais nada na livraria da minha cidade, fora José de Alencar: O guarani, O sertanejo, Ubirajara e Iracema. Como eu estava viciado, tipo Cervantes, que lia qualquer papel rasgado na rua, comprei todos. Guri bobo, aí pelos onze, doze anos, achei sensacional O guarani e O sertanejo. Quem, nessa idade, não ia querer fugir pro mato com a Ceci ou com a sinhazinha? Mas empaquei no Ubirajara. Aquele exagero todo me pareceu ridículo. Mas, sem desânimo, peguei Iracema. Pronto, o lirismo do seu Zé de Alencar enterrou pra sempre a virgem dos (grandes) lábios de mel. Matei na hora: a esmeralda líquida era bijuteria de turmalina.

 Daniel Defoe, um estrangeiro distante, estava muito mais perto de mim. Logo eu descobriria que outros estrangeiros, mais distantes ainda, tanto no espaço como no tempo, estavam mais perto. Não me parece que haja nada de estranho nisso. Estamos falando de confluência de interesses, de visões de mundo. Estamos falando de emoções compartilhadas. Parece estranho que alguém bote acima do cerne humano — digamos assim, pra não usar palavras desbotadas como coração ou alma — a mera curiosidade histórica ou sociológica.

 

Queixas

Toda vez que ouço um escritor brasileiro se queixando de que os leitores também brasileiros se interessam mais pelos estrangeiros, tenho vontade de mandar o sujeito escrever melhor. Mas não mando. Realmente há algo errado em nosso mercado. Qualquer merda norte-americana chega aqui com toda uma publicidade atrás, desde elogios desmesurados dos jornalistas deles — pagos apenas pra elogiar, ou embalados por um umbiguismo incapaz de distinguir dois palmos fora das fronteiras de seu país, a não ser em caso de invasão militar — até filmes naturalmente badalados por uma crítica acéfala muito bem paga. 

O que os nossos jornais fazem pra contrabalançar isso? Nada ou muito pouco. Peguemos, por exemplo, um dos melhores livros de contos das últimas décadas: O amor e outros objetos pontiagudos, do Marçal Aquino. Você viu uma linha no Correio do Povo ou na Zero Hora falando dele? Claro que não. Mas viu muitas resenhas de romances policiais vagabundos, às vezes escritos por equipes, como os de um tal Peterson ou sei lá como se chama o gringo. É difícil se interessar por um livro que você não sabe que existe. 

Escolhi o Marçal como exemplo porque é um escritor conhecido. Mas, ironia, conhecido pelos filmes feitos de seus livros, não pelos livros. Se acontece isso com ele, o que posso dizer de escritores secretos como Mário Goulart e Sérgio Fantini? Goulart e Fantini estão entre os melhores autores que li nos últimos tempos. Mas, confesse, você está em dúvida, achando que inventei esses caras só pra reforçar meu argumento.

Autor

Ernani Ssó

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