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Malefícios do sexo

Nunca entendi esse papo de que sexo prejudica o desempenho dos atletas. Pelo contrário, faz bem, relaxa e tal. Falo de sexo, ou como …

Nunca entendi esse papo de que sexo prejudica o desempenho dos atletas. Pelo contrário, faz bem, relaxa e tal. Falo de sexo, ou como dizia o inesquecível Edélsio Tavares, daquilo naquilo. Noites inteiras de festança e bebedeira são outros quinhentos. Mas, enfim, descubro uma frase do Walter Casagrande Júnior que me parece definitiva: “Sexo não faz mal nem antes nem depois do jogo. Só durante”.

Corretor do Word

Eu deixo ativado o corretor do Word, porque em cada trinta vezes ele acerta uma e porque me divirto com os erros, ou me sinto superior frente à chamada inteligência artificial. Vejamos um caso, uma frase do Cervantes sublinhada de verde — a correção era gramatical, não ortográfica, como vocês sabem. O recado era o seguinte: “Essa frase contém 65 palavras. Deveria conter no máximo 60”. A inteligência não é tão artificial assim, porque por trás da máquina estão pessoas que decidiram que uma frase deve conter no máximo 60 palavras. Eu gostaria de saber como elas chegaram a esse número. Talvez seja o décimo primeiro mandamento, que se perdeu: não usarás mais de 60 palavras numa frase. E o que a gente faz com os milhares de escritores que, como Cervantes ou Shakespeare, às vezes usam muito mais de 60 palavras numa frase? Não lê? Bota os livros no fogo? Se autoflagela depois de cada página?

O escândalo do padre

O padre Pero Pérez, amigo de dom Quixote, se exclamando contra as comédias da época (por sinal, quase sempre com razão), se sai com esta: “Pois que maior absurdo pode haver, no tema que tratamos, do que surgir uma criança de fraldas na primeira cena do primeiro ato e na segunda surgir como um homem barbado?”. Certamente o padre teria um faniquito se essa criança voltasse às fraldas na terceira, ou surgisse mais nova ainda, na barriga da mãe. Mesmo hoje em dia, desmamados por mais de um século de cinema, há pessoas que ainda se perdem com os cortes de cenas de ligação, sem falarmos nos flashbacks, se não forem muito bem sinalizados. Exigem da arte uma coerência e organização que nunca encontraram na vida, que, conforme aquela frase genial do Fraga, não tem corrimão. Mas não estou aqui tirando sarro de ninguém: a arte é isso aí mesmo, uma versão mais funcional, ou palatável, dessa encrenca toda. Ou, digamos melhor, com a permissão do Fraga: a arte tem corrimão.

A seriedade e a diversão

Muita gente acha que os livros e os filmes devem apenas instruir, de preferência com uma seriedade que se confunde com uma carranca digna de buldogues. O padre do Cervantes era mais sábio: “(livros) para honesto passatempo, não somente dos ociosos, como dos mais ocupados, pois não é possível estar sempre com o arco retesado, nem a condição e debilidade humana pode se sustentar sem alguma lícita recreação”. Isso sem falarmos que, se divertindo, se aprende muito mais e mais facilmente, verdade antiguinha, defendida por muitos, como Robert Louis Stevenson num ensaio.

Guerra ao acaso

Um amigo meu me disse que vai sempre ao Brique da Redenção. Não perde a esperança de encontrar um Picasso perdido entre os quadros expostos, em geral paisagens ao pôr do sol ou cavalos musculosos. Me acontece algo parecido com as bancas de revista. Vejo aquele monte de papel colorido e tenho vontade de examinar tudo. Minha esperança é encontrar uma obra-prima literária numa dessas edições populares. Sei que isso parece louco, ou idiota, mas a verdade é que foi assim que topei com Graham Greene. Ainda lembro direitinho da capa horrorosa da edição da Abril de “Americano tranquilo”. Está li na estante até hoje. Lembro também da emoção, nas primeiras páginas, de ter encontrado um grande escritor.

Autor

Ernani Ssó

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