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Máquina de fazer pensar

Gonçalo Tavares, o escritor angolano, disse que o livro é uma máquina de fazer pensar. Tudo bem. Só que antes é uma máquina de …

Gonçalo Tavares, o escritor angolano, disse que o livro é uma máquina de fazer pensar. Tudo bem. Só que antes é uma máquina de emocionar. Se não for, será apenas uma máquina de encher o saco ou de bocejos ou de cochilos.

Não aguento essa mania de considerar o pensamento uma coisa isolada, pairando acima de tudo. Nós somos uma mistura, uma mistura louca, na maioria das vezes menos harmoniosa que dobradinha com limonada. É difícil lidar com isso, eu sei, mas apostar num elemento único é o modo mais fácil de criar monstros.

Sempre penso no Jorge Luis Borges nesses casos. Ou melhor, nos ensaios dele. Será que um Gonçalo Tavares não se dá conta de que ali o pensamento — cortante, por sinal — é inseparável da emoção? Mais, o próprio pensamento se torna um objeto lúdico.

Acho que o problema é que quando se fala em pensamento se dá de barato que se fala de pensamento lógico-matemático. Mas o buraco é mais embaixo, muito mais embaixo. Tão mais embaixo que está fora do radar do teste de QI.

Frutos do meu fracasso

Conheci Marçal Aquino e, logo a seguir, Sérgio Fantini e Sérgio Rodrigues em meio a um fracasso retumbante. Nos tempos da revista Vox XXI, a primeira, aquela feita no governo Olívio Dutra, o editor, Paulo Bentancur, me pediu um balanço da literatura brasileira atual. Fiquei sem jeito — afinal, minha ignorância no assunto é legendária. Por que não procurava um desses professores de letras que escrevem pra jornal? Eles pululam e estão ansiosos pra encher qualquer pedaço de papel com as teorias que aprenderam e que não servem pra mais nada a não ser encher pedaços de papel. Me disse que não queria mais um artigo burocrático, mas um texto com algum molho e capaz de botar algumas figurinhas carimbadas contra a parede. Antes que eu pudesse pensar, estava de posse de um pacote com mais de cem livros, praticamente todos escritos nos anos 90.

Passei uns dois meses lendo e tomando notas. Aí empaquei. Como escrever? Nunca saí dos primeiros parágrafos.

Ao contrário dos professores, eu não tinha nenhuma teoria pra descrever minuciosamente com o único propósito de demonstrar que a conhecia, nem tinha achado nenhum traço de união entre tantos escritores de uma mesma geração. Quer dizer, tinha achado vários traços: mediocridade, irrelevância, chatice, falta de domínio das técnicas mais rasteiras. Outra coisa que me chamou a atenção foi o tratamento dispensado ao sexo. Na maioria dos casos, me senti perdido na Curitiba de Nelsinho, o Delicado, o famoso vampiro do Trevisan. Como podia acontecer isso depois da chamada revolução, ou escaramuça, sexual dos anos 60 e 70?

Mas alguns autores me lavaram a alma, como se diz. Cito alguns, além do Marçal e dos dois Sérgios: Claudio Galperin, Cadão Volpato, Mario Pinheiro, Fernando Bonassi, Carlos Gerbase e Índigo. Tinha também alguns velhos conhecidos como Mário Goulart e Amilcar Bettega, que pra nosso azar escrevem pouco. Devo estar esquecendo alguém, mas paciência.

Pedi penico ao Bentancur. Pegou mal. Minha matéria tinha sido anunciada com fanfarras. Pior, tinha muita gente que confiava em mim. Além de incompetência, aleguei legítima defesa: se eu dissesse em público o que pensava de mais de setenta autores, poderia sair com vida, se tivesse sorte, mas certamente a Vox XXI não me pagaria o tratamento traumatológico nem as cirurgias plásticas necessárias.

O que houve de bom, como disse no começo, foi ter conhecido o Marçal, o Fantini e o Rodrigues. Houve uma sintonia imediata entre mim e o Fantini, trocamos notícias e palpites toda semana. Temos poucas discordâncias — e inteligentes da parte dele. Entre elas, apenas uma séria: ele prefere cerveja, eu prefiro vinho.

O Fantini sempre diz que a melhor coisa que a literatura deu pra ele foram algumas amizades. Pensando bem, pra mim também. Pensando bem? Nem precisa pensar.

Autor

Ernani Ssó

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