Fiquei sabendo do leilão da Olivetti Lettera 32 do escritor americano Cormac McCarthy. Lembrei das minhas máquinas de escrever talvez com saudade, uma saudade duvidosa, digamos, porque escrever a máquina era uma trabalheira dos infernos. Meu ortopedista e eu lembramos muito bem.
Aprendi datilografia numa Olivetti Studio 42. Nela escrevi meu primeiro conto — acho que de espionagem, acho que aos catorze anos. Pena que não guardei. Seria interessante ver o que eu dizia sobre um assunto de que não entendo nada ainda hoje.
Minha estreia literária foi aos onze, depois de ler Robinson Crusoé. Gostei tanto do livro do Daniel Defoe que não tive dúvidas: queria escrever uma aventura tão emocionante como aquela. Ainda quero. Peguei um caderno, uma caneta e, com a calma dos predestinados, comecei a descrever a casa do meu herói, na dúvida se a localizava de frente pro leste. Qual a importância disso no enredo, não tenho ideia, talvez porque me faltasse enredo. Acontece. Se não sabemos pra onde ir, ficamos encafifados com detalhes idiotas.
É isto: empaquei na terceira linha. Mas o estrago já estava feito. Meu negócio era escrever.
Houve outras tentativas, mas tenho muita dificuldade em escrever a mão: a mão dói e a letra, que começa clara e redonda, se desmancha em garranchos em menos de três linhas. Com a Studio 42 descobri certa sintonia entre a rapidez de meus dedos e a de meus pensamentos, sem falar que o texto no papel se parecia mais com o que se via nos livros. Total, nunca mais toquei numa caneta, a não ser pra lista do super ou pra cheques de que não posso fugir. Minto, toquei uma vez. Precisei mandar uma cartinha de amor de próprio punho. Mas trapaceei: escrevi a máquina antes de passar a limpo laboriosamente.
Depois da Studio 42, tive duas Hermes Baby 22, mais fáceis de levar em viagem. A primeira foi praticamente destruída por mim. Depois de anos, havia letras que apareciam apenas pela metade no papel. A segunda não teve tempo. Estava bastante boa quando o computador entrou na minha vida. Gozado, em poucos anos tive mais computadores do que máquinas de escrever a vida toda.
Me adaptei rapidamente ao computador. Comecei passando a limpo um livro e me arriscando em textos curtos. Em dois, três meses, parecia que eu sempre o tinha usado. Hoje, se o apagão vier, estou frito em pouca banha, como dizia a minha avó.
A máquina de escrever exige um esforço físico tremendo, pelo menos no meu caso. Eu escrevia tudo, do começo ao fim, sem revisar, fora as primeiras páginas até engrenar. Depois relia, anotava e copiava tudo de novo. Isso podia acontecer três, quatro, cinco ou quinze vezes. Haja paciência e espinhaço. Mas era necessário copiar, porque, ao copiar, ia fazendo dezenas de modificações.
Como dizia o Henry Miller, algo se passa entre meus dedos e o teclado. Eu tinha medo de que, com o computador, esse estado de alerta se perdesse, já que não se copia, simplesmente se revisa.
Meu jeito de escrever se modificou quase sem que eu notasse. Nada de escrever até o fim pra depois revisar. Escrevo e reviso, escrevo e reviso. Com a facilidade do computador, faço muito mais modificações do que no tempo da máquina. Mas é triste observar que o nível do que escrevo continua mais ou menos o mesmo.
Só sei pensar diante de um teclado ou diante de uma mesa, principalmente de bar. Não preciso de bebida. No bar só preciso de companhia, de gente boa em pingue-pongue mental. Descobri que dependendo do interlocutor se fica mais inteligente ou mais burro. Inteligência e burrice são contagiosas. O estrago talvez não seja permanente, mas é preciso cuidado: a inteligência exige um esforço muito maior. Sozinho, só preciso do teclado, mesmo não tendo vergonha de falar comigo mesmo em voz alta, na rua.

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